segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ensaio sobre a timidez



Como em todos os dias , ele se aprontou, vestiu sua melhor camiseta, branca com alguns dizeres aleatórios. Não era de nenhuma marca conhecida, ele não ligava pra isso.

- Allan!

A vós de seu amigo gritando la da rua já era aguardada, com uma conferida nas horas ele percebeu que não estava atrasado.

Amarou os cadarços do tênis, olhou para o espelho, o que viu o agradou, sabia que não era o mais bonito dos rapazes, mas não era feio. Ele virou seu corpo em forma para visualizar o conjunto de sua roupa, e se havia algum detalhe que precisava ser alterado. Estava tudo perfeito.

Sem esquecer seu violão, fiel amigo na luta contra a forte timidez, ele seguiu pela sala e saiu para a varanda de onde viu Gustavo esperando la em baixo.

- Relaxa aí fi, to indo - gritou.

- Tá mas não demora.

Allan atravessou  a varanda se dirigindo para o corredor que levava às escadas mas passou antes na cozinha para tomar um pouco de água.

- Eae fi? Partiu? - enquanto falava Gustavo cumprimentava Allan com  uma batida de mãos abertas depois fechadas em forma de soco.

- Fecho, vamo nessa - Allan se virou e trancou o portão - Tchau mãe - gritou bem alto sem ouvir resposta, mas não precisava.

A escola ficava a uns  2 quilômetros dali, mas como não havia linha direta de ônibus o jeito era ir a pé.

O caminho era cheio de recordações, eles passavam perto da casa da Carolina, e Allan se perguntava se ela ainda se lembrava dele lá do primário onde estudavam juntos. Eles não eram muito próximos.

Passavam em frente a casa do Geraldo, antigamente ele tinha uma lan house onde Allan passava horas jogando.

Todas estas lembranças eram rotineiras, até o papo que rolava entre os amigos a caminho da escola eram quase sempre sobre as mesmas coisas.

Enquanto Allan  vivia pensando na Alice, uma garota da igreja, Gustavo falava sem parar da Célia, como ela era linda e como ele não tinha coragem de se aproximar temendo rejeição.

Distraídos em seu bate papo logo chegaram na escola, se separaram com Allan indo para sua sala no terceiro ano, enquanto Gustavo foi com seus colegas de turma para o segundo andar.

A turma que chegara até o ultimo ano do colegial era a mesma que se formou a alguns anos atrás desde a sétima série do fundamental, e logo ao chegar, Allan foi surpreendido pela notícia de quê não haveria aulas no primeiro horário e que sua turma deveria ficar  na quadra esperando a próxima aula.
Então era o momento certo para sacar violão e começar a tocar os sucessos do momento.

Nas primeiras musicas alguns amigos e outros desconhecidos se aproximaram. E então ela chegou, não que Allan nunca a tivesse visto lá, ela aluna nova naquela turma e nunca houve nada de mais.
Mas naquela noite... Allan até tentou encontrar alguma coisa especifica, o sorriso, talvez o perfume ou o charme jogado no ar, mas a verdade é que seu coração estava acelerado, um frio lhe subia o abdômen seguido por arrepios em sua nuca.

Meu deus, onde ela esteve esse tempo todo que Allan nunca lhe tinha percebido? Não esta maneira.
Ela se aproximou balançando com a música de do rapaz e aos poucos as outras pessoas foram se distraindo com algumas coisas e se afastando até o momento em que só sobraram Allan e ela.

-  Você canta muito bem - O elogio dela chegou aos seu sistema nervoso como se tivesse acabado de levar um choque.

- Obrigado.

A moça fez menção de se levantar e ir para outro lugar, mas alguma coisa desconhecida o fez vencer a timidez e pegar na mão da garota a impedindo de seguir em frente.

Quando os olhos voltaram a se encontrar, Allan a soltou como se tivesse levado outro choque.

- Fica mais um pouco - Da onde saiu a coragem pra isso, ele se perguntava,  e a voz nem falhou.
Allan não soube se ela sentiu pena pela sua cara de coitado ou se não tinha nada melhor pra fazer , mas a verdade é que ela voltou e se sentou ao seu lado.

E então os dedos passaram pelas cordas mais uma vez, ali ele se sentia seguro, protegido pelo escudo acústico de madeira do seu violão, enquanto cantava musicas tão ensaiadas que não precisava mais pensar, ele não tinha a preocupação de dizer algo a ela.

Afinal o que ele deveria dizer,  ela é linda? Óbvio demais. Que gostou dela, que algo nela mexeu profundamente dentro de si? Piegas...

Com os últimos acordes a música se foi, e os movimentos automáticos de guardar a paleta entre as cordas atrás do traste do violão se seguiram.

- Você tem uma voz linda - Disse a garota.

Um sorriso sem jeito.

- Obrigado, é a primeira vez que alguém me diz isso.

É engraçado, quanto tempo demora um segundo de silêncio?

- Aliás, meu nome é Allan - Mãos estendidas, um pouco trêmulas.

- Samanta, muito prazer - ao invés de apertar sua mão, ela se inclinou e lhe deu um beijo no rosto, retribuído na sequencia.

- Eu já havia te visto por aí - começou o rapaz - mas nunca havia de fato reparado em você.

- É? O que você reparou em mim -  a garota se olhou propositalmente para si como quem procura algo de errado, mas sabia o que ele queria dizer, seu sorriso declarava isso.

- Você é bonita.

O sorriso em seu rosto junto com a leve inclinação em sua cabeça deu a entender que ela havia gostado da cantada tímida e desajeitada.

- E aí, não sai mais nada desse violão não?

- Sai sim.

Com cuidado ele retirou a paleta do traste e procurou algum lugar para guarda-lo, Samanta se adiantou e pegou-a e ficou segurando, então os dedilhados começaram. Allan pensou em alguma coisa mais tranquila.

"... Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua, merecia a visita não de militares,
mas de bailarinos e de você e eu...".

Era engraçado como era fácil olhar nos olhos dela, não parecia tão difícil como olhar nos olhos das outras pessoas, Allan sentiu que poderia ficar olhando por horas a fio, completamente conectados.

Ao fim da música o sinal da próxima aula avisou que a folga havia terminado, mas o encanto por ela não.

Quando se levantaram para ir à sua sala, ela pediu para carregar seu violão, Allan retirou-o de suas costas passando pra ela que ficou um pouco desajeitada, o violão parecia maior agora que ela o segurava. Caminharam juntos para a sala de aula.

Allan puxou sua cadeira para próximo a dela sob protestos de seus amigos que o queriam junto de si. Além desse fato Allan  não ouviu mais nada que foi dito na sala de aula.

Algumas paqueras no passado nunca tinham passado disso, paqueras, mas agora ele estava ali, perto de uma garota linda que lhe mostrava seu caderno com alguns desenhos de personagens que ela mesma havia criado, era algo diferente.

O desenho que mais chamou a atenção de Allan foi o de uma mulher traçada só a lápis, ela tinha o cabelo curto e repicado, parecia estar se espreguiçando mas em uma das mão, a que passava por de trás da cabeça portava uma pistola.

- Qual o nome dessa mulher sexy aqui? - Allan se deu conta quão a vontade, Samanta o deixava.

- Essa aqui - disse apoiando o indicador em cima do desenho -  é  a Aya, eu copiei esse desenho de uma revista de jogos.

Eles desenharam, mostraram suas letras um para o outro, a dela também não era tão bonita quanto Allan esperava. Tudo se seguiu tranquilo até o fim da aula quando levantaram e saíram da sala.

- Nossa que frio aqui fora!

- É, esfriou mesmo, você pega o ônibus a onde?

A garota virou pra esquerda e apontou pra lá.

- Eu desço por ali e pego ônibus lá perto do rio.

- Nossa mas é muito longe! Você vai sozinha até lá?

Ela sinalizou positivamente com a cabeça.

- Vamos então, eu vou com você.

- Você também mora pra lá?

Um sorrio brotou no rosto do rapaz.

- É... na verdade eu moro pra lá - apontou para o lado oposto.

- Não é justo você me levar lá em baixo então, não precisa se incomodar eu sempre fiz esse caminho sozinha.

- Nunca... além do mais eu posso pegar um ônibus de lá também.

- Ah, então tá.

Os dois seguiram pela calçada rumo à descida do rio.

Com o aumento do vento a garota se agarrou no braço do rapaz que a acolheu e decidiu que passará a  carregar uma blusa dentro da bolsa do violão para ela.

Conversaram sobre suas rotinas, o que faziam durante o dia, ela disse que era babá enquanto ele revelava que era funcionário de uma empresa de TI, ele teve que explicar o que era TI, achou fofo ela não saber o que era.

Caminhando juntos, comentando sobre os lugares onde estavam passando, anotando as diferenças entre as pichações de muro e os belos grafites aqui e acolá.

Finalmente chegaram ao ponto de ônibus, onde dava para ouvir o som vindo de um dos bares de música ao vivo. Eles se abraçaram numa iniciativa dela é claro e ficaram ouvindo a musica em silêncio até o ônibus dela chegar.

Quantas vezes passou pela cabeça dele em beijá-la, ela estava ali, abraçada com ele, estavam juntos apoiados no parapeito do rio, ele sentia o perfume dos cabelos que como a pele dela eram muito negros, e apesar de querer muito vira-la para si, tocar em seu rosto e beijar sua boca seus braços não se moviam. 

De onde surgia todo esse medo,  como vence-lo, como dizer para si que este dragão não passa de um moinho de vento e que não há mal algum em tentar, o que pode acontecer de errado?

O farol alto do ônibus apontou na esquina.

Ela se soltou de seus braços, fez sinal para o ônibus, virou-se para Allan, o ultimo encontro de olhar, o carinho estava ali, mas ainda assim a timidez fez seu trabalho e a garota se despediu com um beijo em seu rosto, virou-se e subiu no ônibus que partiu para seu destino.

O coração do rapaz estava acelerado, em poucas horas seu coração se apaixonou perdidamente por uma garota encantadora e que claramente gostara dele também.

Mas e agora? O que fazer? O que dizer?

Um passo após outro e suas pernas começaram a  a levar pelo longo caminho até em casa. E sua cabeça recordando cada segundo daquela noite, se culpando por não ter ao menos tentado beija-la.

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