Naquela manhã de sol tímido em Praga, era inverno de 1839, a pequena Helena não sabia muito o que esperar, por mais que seus sentidos pareciam estar suspensos e mal conseguisse sentir, ouvir ou enxergar, uma sensação mesclada de segurança e saudade consumia seu coração.
Não se sabia muito sobre o que a afligia, apesar do conhecimento crescente e de todas as pessoas novas e seus conhecimentos que migraram para Praga nestes últimos anos, ninguém conseguia entender o por que de a garota não se alimentar direito e reclamar sempre da barriga dolorosa, as vezes doía tanto que ela não tinha forças para se levantar e não deixava ninguém a tocar.
O reverendo Otto dizia que ela estava com comsuptione, ele afirmava que a urina escurecida, a pele amarelada e a perda de peso exagerada eram sinais de que seus pais deveriam orar muito a deus pedindo pela cura da menina pois a doença era gravíssima. Mas não deu maiores informações, provavelmente porque não sabia.
Em seus pensamentos Helena sabia que o estágio da doença era tão avançado que ela já se encontrava com destino certo. Havia coisas positivas em estar semi morta, as dores que antes eram insuportáveis agora não existem mais. Porém era ruim perceber os vultos dos seus pais e não ouvi-los, não senti-los e não conseguir falar com eles.
Helena sempre foi uma garota simples, quieta e introvertida. E quando começou a passar mal a algumas semanas atrás, sentiu que havia algo muito errado, que a morte estava perto. Desde então não conseguiu se alimentar direito e por isso a cada dia estava mais magra.
E um dia comum, sem nada especial, ela estava colhendo algumas flores em seu pequeno jardim, enquanto ajeitava seus cachos dourados uma tontura muito forte lhe acometeu.
Não houve tempo de pedir socorro, de gritar ou demonstrar qualquer sinal, e tudo se escureceu.
Não houve tempo de pedir socorro, de gritar ou demonstrar qualquer sinal, e tudo se escureceu.
Quando acordou, em sua cama onde está até hoje, Helena já não ouvia nada e nem conseguia falar, e aquela suspeita de morte agora era uma certeza, seus olhos foram ficando esbranquiçados até ficarem completamente brancos, sua pele empalideceu tanto quanto os cabelos. Com olhar incerto como de alguém perdido na escuridão, ela mal podia sentir o calor de quando lhe seguravam sua mão. Não conseguia distinguir quem estava perto pois parecia que os ouvidos já não funcionavam.
Mas curiosamente manteve-se consciente, curiosamente manteve-se viva. Já não havia mais como saber o que ela tinha pois não conseguia se comunicar e tudo que passava em sua cabeça era a vontade de dizer a sua mãe e ao seu pai o quanto ela os amava e dizer que não precisavam ficar tristes, pois estas coisas acontecem.
Mas antes que pudesse haver uma melhora, ou uma possibilidade de tentativa, a morte veio como uma brisa suave, uma brisa da manhã de um dia ensolarado trazendo calor e conformo.
A morte era um pouco diferente do que Helena havia imaginado, estava ali em pé em um breu total. Ouvia claramente agora sua mãe chorando e seu pai que em silêncio sofria de uma dor tão forte que ela mesma que acabara de morrer nunca sentiu.
Como era possível? Será que ela estava dentro deles? Pensava .
- Mãe!! Pai!! Estou aqui!
Tudo que ouviu foi sua voz ecoando em algum lugar e retornando aos seus ouvidos. Eles não podiam ouvi-la, claro, senão haveria relato dessas coisas por aí.
Mas agora o que fazer?
Aos poucos o breu absoluto cedeu lugar a uma pequena luz ambiente, cinza e fraca e sem direção.
Helena percebeu que estava em uma praia, mas não havia cor, meio borrado como se estivesse pintado.
A maré se movia normalmente para lá e para cá porém apesar de poder tocar a água e senti-la escorrer pelos seus dedos, a pequena garota de vestido rosa não conseguia ouvir o som do mar.
Quando resolveu olhar para cima, percebeu que a lua antes branca, agora estava emitindo brilho tênue insuficiente para iluminar qualquer coisa, mas a tornava visível e linda. A luz era de um tom ciano leve e ela era completamente lisa, não havia manchas.
Intimamente Helena desejou estar lá e como em um sonho daqueles bem estranhos ela estava parada em pé olhando o planeta terra, que em tons de cinza girava lentamente. Helena olhou ao redor, viu o chão liso e limpo, metálico e que se estendia até o horizonte em todas as direções, com uma luz levemente azulada então percebeu que estava naquela lua diferente.
Apesar de toda a tristeza que sentia chegar até si, tristeza que emanava dos seus pais e amigos, ela a pequena garota não sabia exatamente o que estava sentido seu próprio coração, uma certa excitação por perceber que a morte não era o fim e então toda a dor que dilacerava o coração de seus pais.
Primeiro um passo, lento e calmo, depois outro... Helena andou, andou, achou que havia saído da linha reta imaginária então tentou se alinhar e continuar andando sempre na mesma direção. Quando tornou a olhar para frente viu surgir diante dos seus olhos uma linha de luz que traçava a rota que ela vinha fazendo e indicava o futuro reto que ela planejava. Ela sorriu e continuou andando.
- Helena.
A vós serena, paterna e repleta de amor a fez olhar para o lado e a pequena menina viu a imagem do seu avô, gordinho, com barbas brancas, e usando o suspensório de sempre que seguravam suas calças.
- VOVÔ! – gritou a garotinha correndo para os braços de seu avô com os olhos repletos de lágrimas.
O senhor branco retirou sua boina marrom, ajoelhou-se sem dificuldades sobre apenas um joelho e abriu os braços exibindo um largo sorriso de saudade.
- VOVÔ!
Ao abraçar seu avô, Helena chorou, chorou, chorou tanto... Era como se de uma vez a dor e medo que enfrentou bem até agora tivesse caído em suas costas e esmagado seu coração que doía muito. Enquanto apertava seu avô, a pequenina criança sentiu tanto medo, tantas incertezas e os pensamentos e palavras que não saiam de sua boca só se traduziam em lágrimas.
Ela sentia os braços firmes de seu avô a apertando contra seu peito e sentia que estava segura.
- Helena, doce Helena, está tudo bem, não tenha medo.
- Mas... vovô, eu... eu...
-psiiiiu... calma não precisa falar nada, apenas se acalme, agora você está segura ta bem?
A menina continuou a chorar por mais alguns minutos em silêncio e quando seus olhos já não tinham mais lágrimas ela começou a se acalmar e seu coração a bater menos acelerado.
- Vovô, estamos mortos né?
Seu avô calmamente retirou um lenço que sempre carregava, e enxugou as lágrias da menina.
- Se estivéssemos mortos, como você estaria me vendo agora, sentindo meu abraço ou até mesmo falando comigo? – E liberou mais um grande sorriso confortando a garota - Por um acaso você não está sentindo seu coração bate?
Helena demonstrou uma certa confusão, era seguro em sua mente que ela havia morrido, mas será que foi outra coisa?
- Então me conta vovô, onde estamos.
O velho senhor olhou para Helena meio que a examinando, e sem dizer nenhuma palavra continuou a observar a garotinha calmamente.
- E então vovô?
O velho se levantou, deu a mão para sua netinha e começou a caminhar calmamente sob a luz da terra.
- Filha... – o avô parou a caminhada e olhou nos olhos de sua neta, com uma voz segura, mas cautelosa - eu tenho muita coisa para te falar, mas eu preciso saber se você está mais calma.
A garota sacudiu a cabeça.
- Você tem quantos anos, oito?
- Nove!
- Nove, humm... – O senhor retornou o olhar para o horizonte para onde estavam a caminhar – você por um acaso sabe onde estamos?
- Sim, sei sim, estamos na lua não é? Apesar de parecer diferente.
O senhor sorriu.
- Não filha, esta não é a lua, estamos em um outro lugar, um lugar que você vai achar que é mágico.
- Mágico!? – reclamou a garota –mas não há nada aqui!
O velho sorriu novamente.
- Sim, curiosamente não há nada aqui – Então ele parou a caminhada dobrou o joelho em frente a menina novamente e a olhou nos olhos com um olhar de alguém maravilhado – mas ao mesmo tempo está tudo aqui! Olha lá!
O homem virou-se para o lado direito e apontou para cima em um ponto onde não havia nada.
- Você consegue ver Helena?
- Humm…
A menina não enxergava nada, apertou os olhos forçando a visão mas ainda sim nada. Mas quando estava prestes a relatar o nada em sua frente, ela viu um pequeno ponto de luz semelhante a uma estrela amarelada, mas diferente de uma estrela o pontinho de luz parecia estar se movimentando e ganhando volume. Quando ficou um pouco maior começou a se assemelhar na verdade como uma chama, que se contorcia e continuava a aumentar, então as íris da pequena Helena se dilataram, os olhos se abriram ao máximo e ela não conseguiu acreditar no que via.
A luz, ou chama havia se transformando em um pássaro, um tipo de garça que batia suas asas flamejantes em um voo tranquilo.
- Vovô você que fez aquilo?
- Sim querida, eu que fiz - O avô de Helena estendeu a mão no ar e apontou um dedo, começando a desenhar no ar, por onde ele passava os dedos ficava uma rastro de fogo e no final do movimento formou-se o nome da Helena.
- Nossa, eu também consigo fazer isso?
Percebendo que de uma vez por todas a jovem garotinha havia se acalmado, o senhor voltou-se novamente para ela ainda mantendo-se de joelhos.
- Helena, na verdade eu não sou o seu avô.
A olhar de sorriso da menina diluiu-se aos poucos.
- Eu sou a sua consciência dele, eu sou o que o seu avô é para você aí dentro - o velho homem terminou a frase apontando o dedo para o coração da menina.
- Como assim? você é meu avô, mas não é meu avô?
- Exatamente, eu sou o pedacinho do seu avô que mora dentro de você - O homem fez uma pausa enquanto se levantava - veja bem, sempre que você imaginava seu avô, você o imaginava com estas roupas não é? com esta barba e até mesmo a boina.
Sem nada dizer a menina parecia estar refletindo enquanto olhava para o vazio.
- Sim, é verdade. - Ela voltou a focar no velho - E o que isso significa?
- Significa filha, que tudo isso que você está vendo, é criação sua, está dentro de você, dentro do seu subconsciente.
O semblante da garota tornou-se a ficar o vazio por alguns instantes.
- Então se eu quiser você pode desaparecer? - enquanto falava, a garota fitava o espaço em torno da terra - ou posso te transformar em um urso de boina?
- Não é bem assim que funciona, neste lugar, o que conta é seu sub-consciente, é bem o que está aí dentro de você em algum lugar que nem você mesma sabe exatamente onde é, é daí que vem as suas criações, é daí que eu venho... - O homem também começou a fitar o espaço vazio onde a garota olhava - mas isso não quer dizer que eu não seja, pelo menos um pouco o seu avô de verdade.
- O senhor está me deixando confusa.
- É confuso mesmo. Para entender exatamente o que está acontecendo, você deve entender o que é a consciência. E nada melhor do que eu, a personificação do seu sub consciente para te explicar.
De supetão a garota virou-se para seu avô como se algo urgente lhe tivesse vindo à cabeça.
- Mas você faz parte de mim, você é quem eu sou, então como você pode saber mais coisas do que eu?
- Sim, você está certa, como eu posso te ensinar algo se quem me criou foi você né? - O velho avô de Helena tornou mais uma vez a olhar para ela, deu alguns passos para trás - Preste atenção nisso - ele abriu os braços e olhou para o espaço, passou-se alguns segundos até que seu corpo começou a emitir uma luz branca que lhe recobriu a ponto de se tornar muito forte e impossível de se olhar diretamente.
Mas aos poucos a luz diminuiu até acabar, e quando era novamente possível enxergar seu avô, agora ao invés de ver um velho de barbas brancas, boina, calças e suspensórios marrons-xadrez, ela estava olhando para um ser semelhante a um anjo, que a Helena teve a curiosa sensação de tê-lo conhecido antes. Ele era muito branco, parecia ser feito de luz, suas asas eram disformes, dois borrões brancos que saíram das suas costas em direções opostas.
- O que aconteceu?
O anjo olhou para seu próprio corpo e mãos.
- Eu fui criado por você, mas eu sou uma consciência a parte. Sou um indivíduo e sou consciente de mim mesmo, tenho todas as memórias que você possui do seu avô. Mas o que me permite fazer tudo isso, é você Helena, você é especial de alguma forma que nem a consciência coletiva humana sabe explicar. Pra te dizer a verdade... - O anjo olhou para os lados como que procurando algo - Nem mesmo os criadores deste lugar sabem.
- Criadores? Não foi Deus quem fez tudo? inclusive este lugar?
Um pequeno sorriso se desenhou no rosto do anjo.
- A sua concepção de deus deve mudar um pouco Helena, mas antes, irei te ensinar a lidar com este lugar.
O anjo mas uma vez começou a emitir o mesmo brilho de antes e quando parou de brilhar sua aparência era de um tigre branco, muito branco com listras muito negras, seus grandes olhos eram de um azul-gelo tão profundo quanto os oceanos.
O tigre permaneceu lá parado, e Helena sem nenhum sinal de medo, aproximou-se para ver suas listras. Ela pensou que havia algo errado, elas não eram de fato listas eram como que fendas e dava para ver o universo dentro delas, era como olhar para o espaço naqueles dias de lua nova na fazenda do seu avô.
- Não preciso lhe dizer meu nome não é? - Disse o tigre com uma voz paterna enquanto virava-se para a menina. Ela sorriu.
- Não... Edrain!. - E o abraçou logo em seguida.
O abraço da garota foi muito apertado e bem demorado, quando se soltou do grande tigre seus olhos estavam marejados.
- Eu sempre pensei que…
- ... se deus existisse ele seria assim. - interrompeu o tigre sorrindo.
Após alguns instantes de carinho e olhares, Helena olhou o chão à sua esquerda a alguns metros de distância e naquele exato local um brotinho começou a nascer, assemelhou-se a um broto de feijão, verde e fino, mas continuou a crescer, seu tronco começou a tomar forma e alguns galhos começaram a crescer também, juntamente com os galhos começaram a surgir pequenos botões que logo se desabrocharam florindo e pintando a árvore de amarelo e finalizando um lindo Ipê.
- Você aprende rápido.
- Obrigada.
Edrain iniciou uma pequena caminhada indo em direção aleatória.
- Certamente, se qualquer humano vir até aqui, este lugar se transformará num inferno. As pessoas não possuem controle de suas mentes. Elas pensam que controlam suas vidas, que constroem coisas grandes ou que fazem parte de algo maior do que a própria existência. Mas são incapazes de compreender o que são, incapazes de controlar seus sentimentos, incapazes de controlar a si próprios…
Apos alguns passos e uma pequena pausa, continuou.
- Alguns olham para o céu a noite, uns sonhando com mundos diferentes, outros querendo entender o universo, já alguns apenas olham e enxergam pontinhos brilhantes…
Edrain deu mais alguns passos até uma certa distância e olhou para Helena.
- Mas você está aqui e no entanto não vejo bicho papão, baratas ou bruxas feias... Na verdade não vejo nada, além de você e eu... Definitivamente eu não sei explicar, posso apenas ter algumas idéias a respeito…
- E o que isso significa?
- Significa que, eu criei o universo... Mas uma garotinha de 9 anos sabe mais do que eu.

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