sábado, 18 de outubro de 2014

Garota


A luz fraca do dia alcançava os pequenos espaços entre o blecaute e a parede avisando que o dia finalmente se limpava da sujeira noturna.

A porta do apartamento se abre, e de lá entra uma garota de cabelo castanho escuro, molhado, com mechas azuis e vermelhas nas pontas que não chamavam tanta a atenção como poderiam.

Respirando de forma cansada, não pelo ocorrido na noite que findava, mas por carregar o peso de algumas decisões erradas.

Logo ao fechar a porta atrás de si, ela se apoiou na parede lateral da porta, cruzou suas pernas formando um 4 e abriu o fecho de sua bota cano longo preta e sentiu uma súbita sensação de alívio. E enquanto ela repetia a ação na outra perna olhou para seu apartamento.

Ele era pequeno, um kit-net, da porta se podia ver a cama com uma mistura de lençóis e travesseiros espalhados de qualquer jeito, entre a cama e a porta já era a cozinha com uma pequena mesa de dois lugares encostada na parede logo abaixo da janela coberta pela cortina florida, a cortina era feia, mas já estava ali quando ela alugou o AP.

Se movendo pesadamente ela jogou sua bolsa em cima de uma das cadeiras da mesa, dirigiu-se ao banheiro, torceu o registro em forma de estrela cromada de pontas arredondadas.

As primeiras gotas vieram e não demorou desmoronar tanta água quanto a ducha suportava.

Com um pouco de esforço devido ao cansaço, ela abriu zíper de sua minissaia jeans escura muito curta. Livrou-se da blusinha branca com rasgadinhos aqui e acolá liberou a trava do sutiã e se viu livre diante do espelho.

Seu rosto cansado com restos de maquiagem mal lavada não mostrava, ela sabia, quem realmente era. Algumas marcas vermelhas aqui e ali em sua pele morena eram uma lembrança passageira da noite agitada que ficou pra trás.

Quando o banheiro se inundava de vapor, ela se jogou debaixo do chuveiro e sentiu a água quente ardendo em sua pele.

Em sua cabeça algumas imagens da noite passada, as comparações de seu amante temporário que a comparava com a esposa. A falsa lisonja dos elogios mesclada com a curiosidade que a fazia atiçar o homem que reclamava de problemas cada vez mais íntimos com sua mulher.

O que a cansava não era o sexo forte com cuspe, baba e fantasias proibidas, isso era o de menos, em seu íntimo ela realizada suas fantasias quando se imaginava sendo a amante, sendo a amada, quando na verdade pouco se importava para seus clientes ou suas esposas.

Ela também não se importava se as mulheres sofriam ou se sabiam.

Dar para qualquer um que lhe pagasse e só.

Lhe ocorreu que talvez esse peso todo poderia ser a falta que sentia de sua mãe. Aquela mulher forte e batalhadora que abria mão cada vez mais de sua companhia para se dedicar a carreira promissora. 

Ela se lembrou que por diversas vezes teve de brincar sozinha enquanto sua mãe em casa debruçava sobre os livros e papeis, não entendia muito bem o porque, mas sabia que não devia incomoda-la naqueles momentos e em outros, e em outros... 

Talvez fosse pela falta de amor materno, talvez fosse por acreditar que a grana não era tudo. Ela nunca soube ao certo e de vez em quando pensava em escrever algo para sua mãe.

Fechando a ducha ela se sentiu tão limpa quanto a séculos atrás, enrolou-se na toalha e procurou uma sandália para calçar.

Mas o que ela iria escrever para a mãe? "Oi mãe tudo bem? eu estou bem, sou uma puta", talvez não fosse o que a mãe dela gostaria de ler, ela nunca entenderia e tão pouco respeitaria.

Quando passava pela cozinha ela viu que ao jogar a bolsa na cadeira uma dolinha tinha pulado para fora. Ela guardou novamente e se dirigiu para cama onde terminou de se enxugar e sem se preocupar em vestir qualquer roupa se jogou nua entre seus lençóis.

Não foi pela falta de amor de mãe que ela se tornou o que é, da maneira dela era estava satisfeita com a vida. Poderia ser a solidão talvez? a quanto tempo ela não transava com alguém que não lhe pagasse? 

Girando em torno de si e abraçando o primeiro travesseiro que encontrou tateando pela cama, ela se ajeitava na posição mais confortável e fechou os olhos.

Ela não se sentia triste também pela falta de reconhecimento, não precisava carregar uma carteira de trabalho assinada.

Talvez, pensou ela quando sua mente já começava a se perder em sonolência, esse peso provém do conhecimento de que o prazer talvez pode não ser tudo.