sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Sonhos ou Fragmentos de Memória




Imagine que você está numa floresta a noite

Você está vendo pequenas frestas da luz lunar penetrando na escuridão sólida e volumosa.

Você caminha, com medo, com sede, com dor e o desespero começa a consumir seu coração.

Tateando entre as matas, entre os galhos e imensas raízes que brotam do chão

Ouvindo barulhos e ruídos estranhos de coisas que certamente não te querem  bem

Sente ser observado. Observado por coisas que querem se alimentar de você

Por criaturas que não diferem você de uma ratazana, é você quem é a caça, a presa.

É você que está no lugar errado.

Acoado você se esconde, tenta silenciar, mas sua respiração é tão alta, que ecoa pela mata

Seu coração bate tão forte que parece tambores convidando os monstros para uma linda refeição

Composta por sua carne e cujo a sede será saciada pelo seu sangue.

Você corre, pois o desespero é tanto que você sente a dor da mordida antes de ter sido mordido

O pânico te impedindo de pensar apenas correr.

Você vê uma luz a frente, uma chama de esperança, olha para trás sem ver nada, apenas sibilos e toda sorte de sons amedrontadores

Você chega numa clareira, sua pele é tingida de branco pela luz da lua.

Você respira.

À sua frente, uma lagoa calma, misteriosa, refletindo a lua em todo seu esplendor.

Bem no centro da lagoa, uma torre, antiga, feita de pedra com musgos e trepadeiras cobrindo-a quase que completamente.

Você retorna por um segundo do sonho e se lembra da floresta negra atrás de si, olha apavorado, vê um paredão formato pelas sobras das árvores ocultando tudo que não estava na clareira.

Recua com um passo pra trás, seus pés sentem o frio da água do lado.

Uma sede toma conta de seu corpo, você se vira, abaixa se apoiando sob um joelho, junta as mãos e mergulha na água gelada do lago.

Um gole.

Depois outro.

Você vê um pequeno brilho azul muito claro logo em baixo de onde você bebia água.

Estica o braço para tentar pegar, e sente algo com uma textura de pedra, mas ela esta presa, você pressiona ela um pouco e o brilho desaparece.

Curioso, você tateia e só sente a lama no chão por baixo da água.

Um barulho de rocha batendo, e um tremor vem da torre no centro da lagoa.

Pequenas ondulações agitam a superfície da água até chegarem aos seus pés.

A parte inferior da torre começa a emitir a mesma luz que você viu perto de si.

A luz cresce como um rastro, pelas paredes da torre, entre os encaixe das pedras, desprendendo as plantas grudadas que caiam nas águas.

Um barulho atrás de si o desperta novamente para a realidade da floresta escura. deparado novamente com a parede de sombras da clareira, você recua e decide nadar até a torre.

Mas quando você deu o primeiro passo dentro da água algo agarrou seu pé.

Assustado abaixou, parecia algo havia enrolado em seu tornozelo, com muito esforço retirou o seu pé e se afastou um pouco do lago.

É perigoso demais.

Da parece de sombras pareciam se estender tentáculos que buscavam te agarrar e te puxar novamente para a escuridão.

Algumas nuvens passavam em frente a lua o que ofuscou um pouco sua luz.

Na breu as garras feitas de sombras pareciam maiores, e poderia ser só sua imaginação, mas pareciam haver olhos na escuridão, malignos e famintos.

Você recuou novamente com o medo para a água. Sentiu novamente algo segurando sua perna.

Percebeu que esse algo não lhe puxava, não lhe apertava, apenas estava encostando em você.

Olhou novamente para a torre, estava limpa, iluminada pelas linhas suavemente azuladas.

Uma paz atingiu seu coração. O medo instantaneamente se foi, e todas as preocupações com vida e morte pareciam, de súbito, ser algo muito sem importância.

Voltou a olhar para as sombras e seus tentáculos já bem próximos a ponto de tocar em sua pele.

Fechou os olhos, abriu os braços e deixou-se cair na água.

Abriu novamente os olhos e viu a lua. Linda, enorme e radiante.

Aquilo que antes segurava seus pé o segurava completamente deitado na água, te mantinha virado para cima respirando enquanto te levava lentamente.

Depois de um tempo, seu corpo começou a se elevar, agora fora da água você via grandes raizes de árvores desdobrando e desenrolando para te segurar em cima da água.

Elas te puseram de pé em frente à torre.

Um sussurro veio de lugar nenhum em sua cabeça "toque-me".

Obediente você estendeu seu braço e tocou a torre com a palma da mão.

A luz da torre como que sendo canalizada começou a envolver sua mão, seu braço seu corpo.

A paz era indescritível, parecia que algo mágico estava acontecendo, algo realmente bom, longe de toda a imundice humana.

A luz seguiu caminhando das fendas da torre até tomarem conta de todo seu corpo.

A torre agora, sem a luz parecia velha como realmente era. Fraca e sem vida.

Fraca para não aguentar mais ficar de pé e primeiro um pedra, depois toda sua estrutura desmoronou.

Envolto na luz azulada, você olha para seus próprios braços, seu corpo parecia diferente, não só pela luz.

Era algo translúcido a ponto de ver os órgãos internos.

Pensando bem não eram os órgãos, era a energia azul, passando por dentro de seu corpo.

Você podia ver, pontos vermelhos, doloridos, com o estomago e o coração. Nesses lugares a luz se agrupava e como que algo quente que arrefecia rapidamente as tonalidades vermelhas no interior de seu corpo foram desaparecendo.

Você olhou para frente, não viu mais a parede de escuridão que via antes.

Via apenas os tentáculos pretos se movendo lentamente, se contorcendo um sobre o outro nos locais onde eram para estar uma energia verde e limpa.

Sem se dar conta, você começou a andar por cima da água. Seus passos eram suportados pelas raízes subaquáticas que o acompanhavam até a margem.

Quando seus pés tocaram a terra pela primeira vez. Você pode ver.

Olhando para baixo, você via além do chão onde pisava. Era uma grande bola vermelha e pulsante.

Você ficou triste e entendeu o que estava acontecendo.

Olhou novamente para a floresta e decidiu que ela será o reinicio de tudo.

Alguns pequenos tentáculos de escuridão que estavam por ali recuaram ao sentir o calor da energia azul que emanava de seu corpo.

Você esticou o braço como quem chama um filhote de cachorrinho.

Os tentáculos, com olhos de sombra raivosos e amedrontados em um último esforço vendo que a realidade havia sido alterada, abriu uma enorme boca de sombras e te engoliu.

A escuridão tomou conta de você.

A dor de um perder um filho, a dor de uma criança que não entende porque estão enterrando sua mãe.
O ódio por terem te estuprado, batido em você e te matado. A vergonha quando riram de você, quando zombaram de você. O medo de ter sido abandonado por todos que amava e a solidão profunda junto da certeza de que só restava a morte.

Você sentiu tudo isso, calmamente, como sendo expressões de uma criança que não compreendia a verdade. Que não podia ver com amplitude os mistérios do universo.

Esticou os braços, mesmo não podendo vê-los, A luz que residia dentro de si voltou a brilhar forte consumindo as sombras, quebrando a escuridão por onde tocava como se fosse um vidro quebrado cujos estilhaços caiam no chão e desapareciam.

A luz, começou a caminhar por toda a extensão dos tentáculos que consumiam toda a floresta.

Você sentiu a floresta dar o primeiro sinal de vida, como uma criança que chora quando acaba de nascer.

Os cacos de sobras seguiram se despedaçando e caindo até que não sobrou mais nada.

Sua energia azul estava por toda parte. Era como o leite materno para um recém nascido, você sentia as arvores e os pequenos animais que a muito tinham entregue seus pequenos corações às sombras sugarem essa energia de você.

E ao invés de se sentir fraco, se sentia mais forte.

Aos poucos, uma luz verde começou a emanar das árvores, os pontos vermelhos no interior dos animais começaram a ser curados, os tons de azul espalhados como uma névoa dentro da floresta começaram a se misturar com os tons verdes da própria floresta.

Até que tudo se tornou verde.

Não um verde ofuscante, mas suave e vivo.

Você soube naquele instante o que deveria fazer, agora só restava saber se os humanos iriam ser fortes o suficiente.


sábado, 18 de outubro de 2014

Garota


A luz fraca do dia alcançava os pequenos espaços entre o blecaute e a parede avisando que o dia finalmente se limpava da sujeira noturna.

A porta do apartamento se abre, e de lá entra uma garota de cabelo castanho escuro, molhado, com mechas azuis e vermelhas nas pontas que não chamavam tanta a atenção como poderiam.

Respirando de forma cansada, não pelo ocorrido na noite que findava, mas por carregar o peso de algumas decisões erradas.

Logo ao fechar a porta atrás de si, ela se apoiou na parede lateral da porta, cruzou suas pernas formando um 4 e abriu o fecho de sua bota cano longo preta e sentiu uma súbita sensação de alívio. E enquanto ela repetia a ação na outra perna olhou para seu apartamento.

Ele era pequeno, um kit-net, da porta se podia ver a cama com uma mistura de lençóis e travesseiros espalhados de qualquer jeito, entre a cama e a porta já era a cozinha com uma pequena mesa de dois lugares encostada na parede logo abaixo da janela coberta pela cortina florida, a cortina era feia, mas já estava ali quando ela alugou o AP.

Se movendo pesadamente ela jogou sua bolsa em cima de uma das cadeiras da mesa, dirigiu-se ao banheiro, torceu o registro em forma de estrela cromada de pontas arredondadas.

As primeiras gotas vieram e não demorou desmoronar tanta água quanto a ducha suportava.

Com um pouco de esforço devido ao cansaço, ela abriu zíper de sua minissaia jeans escura muito curta. Livrou-se da blusinha branca com rasgadinhos aqui e acolá liberou a trava do sutiã e se viu livre diante do espelho.

Seu rosto cansado com restos de maquiagem mal lavada não mostrava, ela sabia, quem realmente era. Algumas marcas vermelhas aqui e ali em sua pele morena eram uma lembrança passageira da noite agitada que ficou pra trás.

Quando o banheiro se inundava de vapor, ela se jogou debaixo do chuveiro e sentiu a água quente ardendo em sua pele.

Em sua cabeça algumas imagens da noite passada, as comparações de seu amante temporário que a comparava com a esposa. A falsa lisonja dos elogios mesclada com a curiosidade que a fazia atiçar o homem que reclamava de problemas cada vez mais íntimos com sua mulher.

O que a cansava não era o sexo forte com cuspe, baba e fantasias proibidas, isso era o de menos, em seu íntimo ela realizada suas fantasias quando se imaginava sendo a amante, sendo a amada, quando na verdade pouco se importava para seus clientes ou suas esposas.

Ela também não se importava se as mulheres sofriam ou se sabiam.

Dar para qualquer um que lhe pagasse e só.

Lhe ocorreu que talvez esse peso todo poderia ser a falta que sentia de sua mãe. Aquela mulher forte e batalhadora que abria mão cada vez mais de sua companhia para se dedicar a carreira promissora. 

Ela se lembrou que por diversas vezes teve de brincar sozinha enquanto sua mãe em casa debruçava sobre os livros e papeis, não entendia muito bem o porque, mas sabia que não devia incomoda-la naqueles momentos e em outros, e em outros... 

Talvez fosse pela falta de amor materno, talvez fosse por acreditar que a grana não era tudo. Ela nunca soube ao certo e de vez em quando pensava em escrever algo para sua mãe.

Fechando a ducha ela se sentiu tão limpa quanto a séculos atrás, enrolou-se na toalha e procurou uma sandália para calçar.

Mas o que ela iria escrever para a mãe? "Oi mãe tudo bem? eu estou bem, sou uma puta", talvez não fosse o que a mãe dela gostaria de ler, ela nunca entenderia e tão pouco respeitaria.

Quando passava pela cozinha ela viu que ao jogar a bolsa na cadeira uma dolinha tinha pulado para fora. Ela guardou novamente e se dirigiu para cama onde terminou de se enxugar e sem se preocupar em vestir qualquer roupa se jogou nua entre seus lençóis.

Não foi pela falta de amor de mãe que ela se tornou o que é, da maneira dela era estava satisfeita com a vida. Poderia ser a solidão talvez? a quanto tempo ela não transava com alguém que não lhe pagasse? 

Girando em torno de si e abraçando o primeiro travesseiro que encontrou tateando pela cama, ela se ajeitava na posição mais confortável e fechou os olhos.

Ela não se sentia triste também pela falta de reconhecimento, não precisava carregar uma carteira de trabalho assinada.

Talvez, pensou ela quando sua mente já começava a se perder em sonolência, esse peso provém do conhecimento de que o prazer talvez pode não ser tudo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Linha caótica de pensamento ou lógica absurda

Qual a diferença entre um corvo e uma escrivaninha?

Você não sabe? quer saber? se você se considera normal talvez você não vá gostar muito da resposta.

Agora me diga, o que é ser normal? é agir normalmente ou apenas aparentar agir normalmente?

Alguém precisa ter o caos em si mesmo para dar luz a uma estrela dançante

Conforme verifica-se através dos anos quais comportamentos são mais adequados para determinado meio social, o indivíduo aprende que determinados comportamentos afastam ou aproximam as pessoas para si. Em alguns casos extremos, essa verificação de o que é aceito em contraposição ao que ele, o indivíduo sente vontade de fazer realmente é crescente.

As vezes isso pode virar uma doença.


Existem aqueles que por razão ou outra agem de maneira um pouco estranha, certamente quem leu até aqui deve conhecer alguém assim. Esta pessoa as vezes fala coisas sem sentido e ri sozinha, não se importa muito se as pessoas não compreendem o que ele diz ou se elas tem que se esforçar muito para tal.

Encontrar a semelhança entre um par de tênis e um garrafa pode ser a chave para resolução de algum problema matemático.


"Deixa eu conferir as contas, eu sou azul natural". (você sabe do que ela está falando?)

Imagine uma receita, os ingredientes são:

- Pensamento independente, talvez causado por solidão na infância ou falta de amadurecimento. A falta de amadurecimento para certas coisas não são problemas, as contas devem ser pagas entretanto.

- A falta de interesse em racionalizar todas as informações, afinal a vida é um caramelo.

- Criatividade à flor da pele, mesmo quando as vezes você  não se sente muito criativo começa, de repente, a chover batatas fritas coloridas do céu, algumas em formato de smile.

- Se você não consegue pensar na solução de f'(a) = limit(x) = (f(x) -f(a) / x - a onde x -> a, pare, imagine que há uma montanha e lá em cima um cachorro pulando de paraquedas, se você reparar bem o cachorro pode estar usando um chapéu.


Existem muitos meios de exemplificar como a lógica absurda funciona, mas não existem, talvez, muitas maneiras de explica-la.

Você pode tentar enquanto toma um chá.

Codex Seraphinianus, um bom exemplo de pensamento caótico


Aliás, a resposta da xarada:

- Por que podem produzir algumas notas apesar de plana, e nunca são colocados com o lado errado para frente.

Faz sentido pra você?

Não?

Era de se esperar, relaxe e continue a nadar.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Jardim de Hevora, parte I




Naquela manhã de sol tímido em Praga, era inverno de 1839, a pequena Helena não sabia muito o que esperar, por mais que seus sentidos pareciam estar suspensos e mal conseguisse sentir, ouvir ou enxergar, uma sensação mesclada de segurança e saudade consumia seu coração.


Não se sabia muito sobre o que a afligia, apesar do conhecimento crescente e de todas as pessoas novas e seus conhecimentos que migraram para Praga nestes últimos anos, ninguém conseguia entender o por que de a garota não se alimentar direito e reclamar sempre da barriga dolorosa, as vezes doía tanto que ela não tinha forças para se levantar e não deixava ninguém a tocar.


O reverendo Otto dizia que ela estava com comsuptione, ele afirmava que a urina escurecida, a pele amarelada e a perda de peso exagerada eram sinais de que seus pais deveriam orar muito a deus pedindo pela cura da menina pois a doença era gravíssima. Mas não deu maiores informações, provavelmente porque não sabia.


Em seus pensamentos Helena sabia que o estágio da doença era tão avançado  que ela já se encontrava com destino certo. Havia coisas positivas em estar semi morta, as dores que antes eram insuportáveis agora não existem mais. Porém era ruim perceber os vultos dos seus pais e não ouvi-los, não senti-los e não conseguir falar com eles.


Helena sempre foi uma garota simples, quieta e introvertida. E quando começou a passar mal a algumas semanas atrás, sentiu que havia algo muito errado, que a morte estava perto.  Desde então não conseguiu se alimentar direito e por isso a cada dia estava mais magra. 


E um dia comum, sem nada especial, ela estava colhendo algumas flores em seu pequeno jardim, enquanto ajeitava seus cachos dourados uma tontura muito forte lhe acometeu.

Não houve tempo de pedir socorro, de gritar ou demonstrar qualquer sinal, e tudo se escureceu.

Quando acordou, em sua cama onde está até hoje, Helena já não ouvia nada e nem conseguia falar, e aquela suspeita de morte agora era uma certeza, seus olhos foram ficando esbranquiçados até ficarem completamente brancos, sua pele empalideceu tanto quanto os cabelos. Com olhar incerto como de alguém perdido na escuridão, ela mal podia sentir o calor de quando lhe seguravam sua mão. Não conseguia distinguir quem estava perto pois parecia que os ouvidos já não funcionavam.

Mas curiosamente manteve-se consciente, curiosamente manteve-se viva. Já não havia mais como saber o que ela tinha pois não conseguia se comunicar e tudo que passava em sua cabeça era a vontade de dizer a sua mãe e ao seu pai o quanto ela os amava e dizer que não precisavam ficar tristes, pois estas coisas acontecem.

Mas antes que pudesse haver uma melhora, ou uma possibilidade de tentativa, a morte veio como uma brisa suave, uma brisa da manhã de um dia ensolarado trazendo calor e conformo.

A morte era um pouco diferente do que Helena havia imaginado, estava ali em pé em um breu total. Ouvia claramente agora sua mãe chorando e seu pai que em silêncio sofria de uma dor tão forte que ela mesma que acabara de morrer nunca sentiu.

Como era possível? Será que ela estava dentro deles? Pensava .

- Mãe!! Pai!! Estou aqui!

Tudo que ouviu foi sua voz ecoando em algum lugar e retornando aos seus ouvidos. Eles não podiam ouvi-la, claro, senão haveria relato dessas coisas por aí.

Mas agora o que fazer?

Aos poucos o breu absoluto cedeu lugar a uma pequena luz ambiente, cinza e fraca e sem direção.
Helena percebeu que estava em uma praia, mas não havia cor, meio borrado como se estivesse pintado. 

A maré se movia normalmente para lá e para cá porém apesar de poder tocar a água e senti-la escorrer pelos seus dedos, a pequena garota de vestido rosa não conseguia ouvir o som do mar.

Quando resolveu olhar para cima, percebeu que a lua antes branca, agora estava emitindo brilho tênue insuficiente para iluminar qualquer coisa, mas a tornava  visível e linda. A luz era de um tom ciano leve e ela era completamente lisa, não havia manchas. 

Intimamente Helena desejou estar lá e como em um sonho daqueles bem estranhos ela estava parada em pé olhando  o planeta terra, que em tons de cinza girava lentamente. Helena olhou ao redor, viu o chão liso e limpo, metálico e que se estendia até o horizonte em todas as direções, com uma luz levemente azulada então percebeu que estava naquela lua diferente.

Apesar de toda a tristeza que sentia chegar até si, tristeza que emanava dos seus pais e amigos, ela a pequena garota não sabia exatamente o que estava sentido seu próprio coração, uma certa excitação por perceber que a morte não era o fim e então toda a dor que dilacerava o coração de seus pais.

Primeiro um passo, lento e calmo, depois outro... Helena andou, andou, achou que havia saído da linha reta imaginária então tentou se alinhar e continuar andando sempre na mesma direção. Quando tornou a olhar para frente viu surgir diante dos seus olhos uma linha de luz que traçava a rota que ela vinha fazendo e indicava o futuro reto que ela planejava. Ela sorriu e continuou andando.

- Helena.

A vós serena, paterna e repleta de amor a fez olhar para o lado e a pequena menina viu a imagem do seu avô, gordinho, com barbas brancas, e usando o suspensório de sempre que seguravam suas calças.

- VOVÔ! – gritou a garotinha correndo para os braços de seu avô com os olhos repletos de lágrimas.
O senhor branco retirou sua boina marrom, ajoelhou-se sem dificuldades sobre apenas um joelho e abriu os braços exibindo um largo sorriso de saudade.

- VOVÔ!

Ao abraçar seu avô, Helena chorou, chorou, chorou tanto... Era como se de uma vez a dor e medo que enfrentou bem até agora tivesse caído em suas costas e esmagado seu coração que doía muito. Enquanto apertava seu avô, a pequenina criança sentiu tanto medo, tantas incertezas e os pensamentos e palavras que não saiam de sua boca só se traduziam em lágrimas.

Ela sentia os braços firmes de seu avô a apertando contra seu peito e sentia que estava segura.

- Helena, doce Helena, está tudo bem, não tenha medo.
- Mas... vovô, eu... eu...
-psiiiiu... calma não precisa falar nada, apenas se acalme, agora você está segura ta bem?

A menina continuou a chorar por mais alguns minutos em silêncio e quando seus olhos já não tinham mais lágrimas ela começou a se acalmar e seu coração a bater menos acelerado.

- Vovô, estamos mortos né?

Seu avô calmamente retirou um lenço que sempre carregava, e enxugou as lágrias da menina.

- Se estivéssemos mortos, como você estaria me vendo agora, sentindo meu abraço ou até mesmo falando comigo? – E liberou mais um grande sorriso confortando a garota - Por um acaso você não está sentindo seu coração bate?

Helena demonstrou uma certa confusão, era seguro em sua mente que ela havia morrido, mas será que foi outra coisa?

- Então me conta vovô, onde estamos.

O velho senhor olhou para Helena meio que a examinando, e sem dizer nenhuma palavra continuou a observar a garotinha calmamente.

- E então vovô?

O velho se levantou, deu a mão para sua netinha e começou a caminhar calmamente sob a luz da terra.

- Filha... – o avô parou a caminhada e olhou nos olhos de sua neta, com uma voz segura, mas cautelosa - eu tenho muita coisa para te falar, mas eu preciso saber se você está mais calma.

A garota sacudiu a cabeça.

- Você tem quantos anos, oito?

- Nove!

- Nove, humm... – O senhor retornou o olhar para o horizonte para onde estavam a caminhar – você por um acaso sabe onde estamos?

- Sim, sei sim, estamos na lua não é? Apesar de parecer diferente.

O senhor sorriu.

- Não filha, esta não é a lua, estamos em um outro lugar, um lugar que você vai achar que é mágico.

- Mágico!? – reclamou a garota –mas não há nada aqui!

O velho sorriu novamente.

- Sim, curiosamente não há nada aqui – Então ele parou a caminhada dobrou o joelho em frente a menina novamente e a olhou nos olhos com um olhar de alguém maravilhado – mas ao mesmo tempo está tudo aqui! Olha  lá!

O homem virou-se para o lado direito e apontou para cima em um ponto onde não havia nada.

- Você consegue ver  Helena?

- Humm…

A menina não enxergava nada, apertou os olhos forçando a visão mas ainda sim nada. Mas quando estava prestes a relatar o nada em sua frente, ela viu um pequeno ponto de luz semelhante a uma estrela amarelada, mas diferente de uma estrela o pontinho de luz parecia estar se movimentando e ganhando volume. Quando ficou um pouco maior começou a se assemelhar na verdade como uma chama, que se contorcia e continuava a aumentar, então as íris da pequena Helena se dilataram, os olhos se abriram ao máximo e ela não conseguiu acreditar no que via.

A luz, ou chama havia se transformando em um pássaro, um tipo de garça que batia suas asas flamejantes em um voo tranquilo.

- Vovô você que fez aquilo?

- Sim querida, eu que fiz - O avô de Helena estendeu a mão no ar e apontou um dedo, começando a desenhar no ar, por onde ele passava os dedos ficava uma rastro de fogo e no final do movimento formou-se o nome da Helena.

- Nossa, eu também consigo fazer isso?

Percebendo que de uma vez por todas a jovem garotinha havia se acalmado, o senhor voltou-se novamente para ela ainda mantendo-se de joelhos.

- Helena, na verdade eu não sou o seu avô.

A olhar de sorriso da menina diluiu-se aos poucos.

- Eu sou a sua consciência dele, eu sou o que o seu avô é para você aí dentro - o velho homem terminou a frase apontando o dedo para o coração da menina.

- Como assim? você é meu avô, mas não é meu avô?

- Exatamente, eu sou o pedacinho do seu avô que mora dentro de você - O homem fez uma pausa enquanto se levantava - veja bem, sempre que você imaginava seu avô, você o imaginava com estas roupas não é? com esta barba e até mesmo a boina.

Sem nada dizer a menina parecia estar refletindo enquanto olhava para o vazio.
- Sim, é verdade. - Ela voltou a focar no velho - E o que isso significa?

- Significa filha, que tudo isso que você está vendo, é criação sua, está dentro de você, dentro do seu subconsciente.

O semblante da garota tornou-se a ficar o vazio por alguns instantes.

- Então se eu quiser você pode desaparecer? -  enquanto falava, a garota fitava o espaço em torno da terra - ou posso te transformar em um urso de boina?

- Não é bem assim que funciona, neste lugar, o que conta é seu sub-consciente, é bem o que está aí dentro de você em algum lugar que nem você mesma sabe exatamente onde é, é daí que vem as suas criações, é daí que eu venho... - O homem também começou a fitar o espaço vazio onde a garota olhava - mas isso não quer dizer que eu não seja, pelo menos um pouco o seu avô de verdade.

- O senhor está me deixando confusa.

- É confuso mesmo. Para entender exatamente o que está acontecendo, você deve entender o que é a consciência. E nada melhor do que eu, a personificação do seu sub consciente para te explicar.
De supetão a garota virou-se para seu avô como se algo urgente lhe tivesse vindo à cabeça.

- Mas você faz parte de mim, você é quem eu sou, então como você pode saber mais coisas do que eu?

- Sim, você está certa, como eu posso te ensinar algo se quem me criou foi você né? - O velho avô de Helena tornou mais uma vez a olhar para ela, deu alguns passos para trás - Preste atenção nisso - ele abriu os braços e olhou para o espaço, passou-se alguns segundos até que seu corpo começou a emitir uma luz branca que lhe recobriu a ponto de se tornar muito forte e impossível de se olhar diretamente.

Mas aos poucos a luz diminuiu até acabar, e quando era novamente possível enxergar seu avô, agora ao invés de ver um velho de barbas brancas, boina, calças e suspensórios marrons-xadrez, ela estava olhando para um ser semelhante a um anjo, que a Helena teve a curiosa sensação de tê-lo conhecido antes. Ele era muito branco, parecia ser feito de luz, suas asas eram disformes, dois borrões brancos que saíram das suas costas em direções opostas.

- O que aconteceu?
O anjo olhou para seu próprio corpo e mãos.

- Eu fui criado por você, mas eu sou uma consciência a parte. Sou um indivíduo e sou consciente de mim mesmo, tenho todas as memórias que você possui do seu avô.  Mas o que me permite fazer tudo isso, é você Helena, você é especial de alguma forma que nem a consciência coletiva humana sabe explicar. Pra te dizer a verdade... - O anjo olhou para os lados como que procurando algo - Nem mesmo os criadores deste lugar sabem.

- Criadores? Não foi Deus quem fez tudo? inclusive este lugar?

Um pequeno sorriso se desenhou no rosto do anjo.

- A sua concepção de deus deve mudar um pouco Helena, mas antes, irei te ensinar a lidar com este lugar.

O anjo mas uma vez começou a emitir o mesmo brilho de antes e quando parou de brilhar sua aparência era de um tigre branco, muito branco com listras muito negras, seus grandes olhos eram de um azul-gelo tão profundo quanto os oceanos.

O tigre permaneceu lá parado, e Helena sem nenhum sinal de medo, aproximou-se para ver suas listras. Ela pensou que havia algo errado, elas não eram de fato listas eram como que fendas e dava para ver o universo dentro delas, era como olhar para o espaço naqueles dias de lua nova na fazenda do seu avô.

- Não preciso lhe dizer meu nome não é? - Disse o tigre com uma voz paterna enquanto virava-se para a menina. Ela sorriu.

- Não... Edrain!. - E o abraçou logo em seguida.

O abraço da garota foi muito apertado e bem demorado, quando se soltou do grande tigre seus olhos estavam marejados.

- Eu sempre pensei que…

- ... se deus existisse ele seria assim. - interrompeu o tigre sorrindo.

Após alguns instantes de carinho e olhares, Helena olhou o chão à sua esquerda a alguns metros de distância e naquele exato local um brotinho começou a nascer, assemelhou-se a um broto de feijão, verde e fino, mas continuou a crescer, seu tronco começou a tomar forma e alguns galhos começaram a crescer também, juntamente com os galhos começaram a surgir pequenos botões que logo se desabrocharam florindo e pintando a árvore de amarelo e finalizando um lindo Ipê.

- Você aprende rápido.

- Obrigada.

Edrain iniciou uma pequena caminhada indo em direção aleatória.

- Certamente, se qualquer humano vir até aqui, este lugar se transformará num inferno. As pessoas não possuem controle de suas mentes. Elas pensam que controlam suas vidas, que constroem coisas grandes ou que fazem parte de algo maior do que a própria existência. Mas são incapazes de compreender o que são, incapazes de controlar seus sentimentos, incapazes de controlar a si próprios…

Apos alguns passos e uma pequena pausa, continuou.

- Alguns olham para o céu a noite, uns sonhando com mundos diferentes, outros querendo entender o universo, já alguns apenas olham e enxergam pontinhos brilhantes…

Edrain deu mais alguns passos até uma certa distância e olhou para Helena.

- Mas você está aqui e no entanto não vejo bicho papão, baratas ou bruxas feias... Na verdade não vejo nada, além de você e eu... Definitivamente eu não sei explicar, posso apenas ter algumas idéias a respeito…

- E o que isso significa?

- Significa que, eu criei o universo... Mas uma garotinha de 9 anos sabe mais do que eu.








quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O fim da Infância

E se o fim do mundo for uma coisa boa? E se a extinção da espécie humana, uma entre possivelmente inúmeras espécies inteligentes no universo,  possuir um significado incompreensível para a maioria das nossas mentes mas não por isso, não ser dotada de um sentido que complete o vazio que carregamos dentro de nossas almas quando olhamos para as estrelas nos perguntando que porra é essa.

Arthur C Clarke explora esse assunto de uma maneira apesar de especulativa é claro, bem honesta em O Fim da Infância.


Muito além desse assunto, este livro trata de algo que considero mais profundo.

Nós humanos não temos referências de como o cosmos pode ser observado ou sentido a partir de outros pontos de vistas, mas através de nossa imaginação e guiados pelas palavras de grandes romantistas podemos tentar ver a vida, o universo e tudo mais de uma maneira mais ampla. E quando fiz isso tentei olhar para nossa espécie com um olhar despido de preconceitos e dos valores que carrego comigo.
Foi uma experiência interessante. A primeira coisa que percebi é a constante busca por identificação de padrões e consequentemente a intensa busca por dar sentido aos padrões previamente reconhecidos.

Essa é a característica mais básica dos homo sapiens e foi durante algumas dezenas de milhares de anos nossa principal arma.

Aparentemente essa busca incessante do nosso cérebro dividiu nossas mentes em dois tipos. Aquelas mentes que buscam racionalizar o mundo e o universo e aqueles que sabem que existe uma força ou forças maiores regendo as coisas e que por esta razão talvez não sintam a necessidade de catalogar tudo.

A linha que divide estes dois caminhos não é fixa e cada indivíduo decide ou é conduzido a um determinado lado.

Nossa dicotomia infantil nos permitiria reconhecer nossos salvadores?


Eu, participante ativamente da linha racionalista sempre pensei que por mais misteriosa e sagrada tudo nesse cosmos poderia ser explicado.

Mas essa certeza minha foi abalada ao ler esta obra. Quando no auge da era da razão a raça alienígena muito superior em diversos aspectos à espécie humana se mostrou interessada em algo que apenas nós tínhamos, uma consciência coletiva muito misteriosa e especulativa.

Então eu parei para refletir "e se". E acabei realizando que talvez nossa corrida pelo conhecimento esteja ofuscando alguma coisa, algo mais importante, talvez não imensamente misteriosa como a alegoria utilizada no livro, mas igualmente fundamental.

E da mesma forma as crenças de que tudo acontece por uma razão, pela vontade de um regente esteja também inibindo essa busca.

Em ambos os casos estamos nos distanciando daquilo que mais importa. Do agora.
Esse excesso ou total ausência de curiosidade podem estar nos impedindo de descobri o nome daquele sentimento que invade nossos corações enquanto esperamos alguma resposta das estrelas.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ensaio sobre a timidez



Como em todos os dias , ele se aprontou, vestiu sua melhor camiseta, branca com alguns dizeres aleatórios. Não era de nenhuma marca conhecida, ele não ligava pra isso.

- Allan!

A vós de seu amigo gritando la da rua já era aguardada, com uma conferida nas horas ele percebeu que não estava atrasado.

Amarou os cadarços do tênis, olhou para o espelho, o que viu o agradou, sabia que não era o mais bonito dos rapazes, mas não era feio. Ele virou seu corpo em forma para visualizar o conjunto de sua roupa, e se havia algum detalhe que precisava ser alterado. Estava tudo perfeito.

Sem esquecer seu violão, fiel amigo na luta contra a forte timidez, ele seguiu pela sala e saiu para a varanda de onde viu Gustavo esperando la em baixo.

- Relaxa aí fi, to indo - gritou.

- Tá mas não demora.

Allan atravessou  a varanda se dirigindo para o corredor que levava às escadas mas passou antes na cozinha para tomar um pouco de água.

- Eae fi? Partiu? - enquanto falava Gustavo cumprimentava Allan com  uma batida de mãos abertas depois fechadas em forma de soco.

- Fecho, vamo nessa - Allan se virou e trancou o portão - Tchau mãe - gritou bem alto sem ouvir resposta, mas não precisava.

A escola ficava a uns  2 quilômetros dali, mas como não havia linha direta de ônibus o jeito era ir a pé.

O caminho era cheio de recordações, eles passavam perto da casa da Carolina, e Allan se perguntava se ela ainda se lembrava dele lá do primário onde estudavam juntos. Eles não eram muito próximos.

Passavam em frente a casa do Geraldo, antigamente ele tinha uma lan house onde Allan passava horas jogando.

Todas estas lembranças eram rotineiras, até o papo que rolava entre os amigos a caminho da escola eram quase sempre sobre as mesmas coisas.

Enquanto Allan  vivia pensando na Alice, uma garota da igreja, Gustavo falava sem parar da Célia, como ela era linda e como ele não tinha coragem de se aproximar temendo rejeição.

Distraídos em seu bate papo logo chegaram na escola, se separaram com Allan indo para sua sala no terceiro ano, enquanto Gustavo foi com seus colegas de turma para o segundo andar.

A turma que chegara até o ultimo ano do colegial era a mesma que se formou a alguns anos atrás desde a sétima série do fundamental, e logo ao chegar, Allan foi surpreendido pela notícia de quê não haveria aulas no primeiro horário e que sua turma deveria ficar  na quadra esperando a próxima aula.
Então era o momento certo para sacar violão e começar a tocar os sucessos do momento.

Nas primeiras musicas alguns amigos e outros desconhecidos se aproximaram. E então ela chegou, não que Allan nunca a tivesse visto lá, ela aluna nova naquela turma e nunca houve nada de mais.
Mas naquela noite... Allan até tentou encontrar alguma coisa especifica, o sorriso, talvez o perfume ou o charme jogado no ar, mas a verdade é que seu coração estava acelerado, um frio lhe subia o abdômen seguido por arrepios em sua nuca.

Meu deus, onde ela esteve esse tempo todo que Allan nunca lhe tinha percebido? Não esta maneira.
Ela se aproximou balançando com a música de do rapaz e aos poucos as outras pessoas foram se distraindo com algumas coisas e se afastando até o momento em que só sobraram Allan e ela.

-  Você canta muito bem - O elogio dela chegou aos seu sistema nervoso como se tivesse acabado de levar um choque.

- Obrigado.

A moça fez menção de se levantar e ir para outro lugar, mas alguma coisa desconhecida o fez vencer a timidez e pegar na mão da garota a impedindo de seguir em frente.

Quando os olhos voltaram a se encontrar, Allan a soltou como se tivesse levado outro choque.

- Fica mais um pouco - Da onde saiu a coragem pra isso, ele se perguntava,  e a voz nem falhou.
Allan não soube se ela sentiu pena pela sua cara de coitado ou se não tinha nada melhor pra fazer , mas a verdade é que ela voltou e se sentou ao seu lado.

E então os dedos passaram pelas cordas mais uma vez, ali ele se sentia seguro, protegido pelo escudo acústico de madeira do seu violão, enquanto cantava musicas tão ensaiadas que não precisava mais pensar, ele não tinha a preocupação de dizer algo a ela.

Afinal o que ele deveria dizer,  ela é linda? Óbvio demais. Que gostou dela, que algo nela mexeu profundamente dentro de si? Piegas...

Com os últimos acordes a música se foi, e os movimentos automáticos de guardar a paleta entre as cordas atrás do traste do violão se seguiram.

- Você tem uma voz linda - Disse a garota.

Um sorriso sem jeito.

- Obrigado, é a primeira vez que alguém me diz isso.

É engraçado, quanto tempo demora um segundo de silêncio?

- Aliás, meu nome é Allan - Mãos estendidas, um pouco trêmulas.

- Samanta, muito prazer - ao invés de apertar sua mão, ela se inclinou e lhe deu um beijo no rosto, retribuído na sequencia.

- Eu já havia te visto por aí - começou o rapaz - mas nunca havia de fato reparado em você.

- É? O que você reparou em mim -  a garota se olhou propositalmente para si como quem procura algo de errado, mas sabia o que ele queria dizer, seu sorriso declarava isso.

- Você é bonita.

O sorriso em seu rosto junto com a leve inclinação em sua cabeça deu a entender que ela havia gostado da cantada tímida e desajeitada.

- E aí, não sai mais nada desse violão não?

- Sai sim.

Com cuidado ele retirou a paleta do traste e procurou algum lugar para guarda-lo, Samanta se adiantou e pegou-a e ficou segurando, então os dedilhados começaram. Allan pensou em alguma coisa mais tranquila.

"... Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua, merecia a visita não de militares,
mas de bailarinos e de você e eu...".

Era engraçado como era fácil olhar nos olhos dela, não parecia tão difícil como olhar nos olhos das outras pessoas, Allan sentiu que poderia ficar olhando por horas a fio, completamente conectados.

Ao fim da música o sinal da próxima aula avisou que a folga havia terminado, mas o encanto por ela não.

Quando se levantaram para ir à sua sala, ela pediu para carregar seu violão, Allan retirou-o de suas costas passando pra ela que ficou um pouco desajeitada, o violão parecia maior agora que ela o segurava. Caminharam juntos para a sala de aula.

Allan puxou sua cadeira para próximo a dela sob protestos de seus amigos que o queriam junto de si. Além desse fato Allan  não ouviu mais nada que foi dito na sala de aula.

Algumas paqueras no passado nunca tinham passado disso, paqueras, mas agora ele estava ali, perto de uma garota linda que lhe mostrava seu caderno com alguns desenhos de personagens que ela mesma havia criado, era algo diferente.

O desenho que mais chamou a atenção de Allan foi o de uma mulher traçada só a lápis, ela tinha o cabelo curto e repicado, parecia estar se espreguiçando mas em uma das mão, a que passava por de trás da cabeça portava uma pistola.

- Qual o nome dessa mulher sexy aqui? - Allan se deu conta quão a vontade, Samanta o deixava.

- Essa aqui - disse apoiando o indicador em cima do desenho -  é  a Aya, eu copiei esse desenho de uma revista de jogos.

Eles desenharam, mostraram suas letras um para o outro, a dela também não era tão bonita quanto Allan esperava. Tudo se seguiu tranquilo até o fim da aula quando levantaram e saíram da sala.

- Nossa que frio aqui fora!

- É, esfriou mesmo, você pega o ônibus a onde?

A garota virou pra esquerda e apontou pra lá.

- Eu desço por ali e pego ônibus lá perto do rio.

- Nossa mas é muito longe! Você vai sozinha até lá?

Ela sinalizou positivamente com a cabeça.

- Vamos então, eu vou com você.

- Você também mora pra lá?

Um sorrio brotou no rosto do rapaz.

- É... na verdade eu moro pra lá - apontou para o lado oposto.

- Não é justo você me levar lá em baixo então, não precisa se incomodar eu sempre fiz esse caminho sozinha.

- Nunca... além do mais eu posso pegar um ônibus de lá também.

- Ah, então tá.

Os dois seguiram pela calçada rumo à descida do rio.

Com o aumento do vento a garota se agarrou no braço do rapaz que a acolheu e decidiu que passará a  carregar uma blusa dentro da bolsa do violão para ela.

Conversaram sobre suas rotinas, o que faziam durante o dia, ela disse que era babá enquanto ele revelava que era funcionário de uma empresa de TI, ele teve que explicar o que era TI, achou fofo ela não saber o que era.

Caminhando juntos, comentando sobre os lugares onde estavam passando, anotando as diferenças entre as pichações de muro e os belos grafites aqui e acolá.

Finalmente chegaram ao ponto de ônibus, onde dava para ouvir o som vindo de um dos bares de música ao vivo. Eles se abraçaram numa iniciativa dela é claro e ficaram ouvindo a musica em silêncio até o ônibus dela chegar.

Quantas vezes passou pela cabeça dele em beijá-la, ela estava ali, abraçada com ele, estavam juntos apoiados no parapeito do rio, ele sentia o perfume dos cabelos que como a pele dela eram muito negros, e apesar de querer muito vira-la para si, tocar em seu rosto e beijar sua boca seus braços não se moviam. 

De onde surgia todo esse medo,  como vence-lo, como dizer para si que este dragão não passa de um moinho de vento e que não há mal algum em tentar, o que pode acontecer de errado?

O farol alto do ônibus apontou na esquina.

Ela se soltou de seus braços, fez sinal para o ônibus, virou-se para Allan, o ultimo encontro de olhar, o carinho estava ali, mas ainda assim a timidez fez seu trabalho e a garota se despediu com um beijo em seu rosto, virou-se e subiu no ônibus que partiu para seu destino.

O coração do rapaz estava acelerado, em poucas horas seu coração se apaixonou perdidamente por uma garota encantadora e que claramente gostara dele também.

Mas e agora? O que fazer? O que dizer?

Um passo após outro e suas pernas começaram a  a levar pelo longo caminho até em casa. E sua cabeça recordando cada segundo daquela noite, se culpando por não ter ao menos tentado beija-la.

sábado, 13 de setembro de 2014

Joaquim



A estrada antes tão longa já exibia trechos conhecidos, como o barraco onde se vendia doces de todos os tipos e pingas bem amargas, também havia a loja de bicicletas, onde parara a muitos anos para concertar seu pneu furado quando na época havia decidido fazer toda essa trajetória de bicicleta.

Outras coisas na chegada da cidade também lhe eram familiares, mas ele não sabia dizer ao certo, talvez o fim da avenida, as construções, enfim, o ambiente no geral.

O ônibus agora fazia seu translado dentro da cidade procurando pela rodoviária, e a única coisa que passava por sua cabeça era o cheiro do mar... quantos anos, pareciam séculos que não voltava a pequena cidade de Marataízes.

Na saída do ônibus, com mochila nas costas, sem bagagens extras, Joaquim tomou uma gole ar do litoral, se espreguiçou e olhou ao seu redor. A pequena rodoviária parecia ainda menor do que ele se lembrava e as ruas, apesar do maior número de pessoas e comércios ainda tinha, tudo isso tinha um ar muito romântico, e tudo remetia a ela...

- Olá pessoas!

Todos dentro da casa, olharam com surpresa para a porta e viram a figura alta, esquia e muito branca, de cabelo preto, curto e barba mau feita.

- Joaquim! - gritaram em uníssono enquanto se apressavam em se aproximar para abraçar o rapaz.

Um homem, alto, moreno, no auge de seus quase 50 e exibindo uma bela circunferência abdominal se adiantou e abraçou primeiro o cansado recém chegado.

- Que saudades rapaz! Por onde você andou esse tempo todo? ta magro heim? tem comida lá de onde você vem não!? - Todas as perguntas seguidas por grandes rizadas.

- A! deixa ele em paz zé! - disse uma mulher magra, se esgueirando no pequeno espaço da porta, de cabelos prateados e lisos, presos em um rabo simples e trajando um avental por cima de um vestido branco e florido que cobria até quase o joelho, em seu rosco algumas rugas que não conseguiam esconder o quanto ela continuava linda - ... Ele está cansado venha kim, me dê um abraço e vamos entrar.

Após a recepção acalorada guiaram o recém chegado até a sala onde da outra porta vinha um rapaz de encontro, moreno, magro com cabelos pretos caindo em franjas no rosto, trajando apenas um short de banho, que ao ver quem havia acabo de chegar, após uma pausa no caminhar, se adiantou e foi abraçá-lo.

- Seu filho da puta! você sumiu seu corno! - Era o jeito dele de dizer que estava com saudades.

- ... Pois é... vida cor...rida - tentou falar enquanto estava sendo espremido pelo amigo num forte abraço.

- Porra velho nem acredito que você veio, eu estava duvidando que vinha vi...

- Aqui kim, tome um suco, é de laranja com acerola - Impressionante, o quanto o coração de Joaquim ainda batia forte toda vez que Lorena se aproximava, o perfume de floral era sempre o mesmo e o sorriso no rosto também, a maneira como ela passava os dedos no cabelo para ajeitar a franja atrás da orelha... mesmo o tempo tendo agido um pouco, continuava tão linda como em seus sonhos - E então kim - ela se sentou na poltrona ao lado de Fernando que remexia ao lado da poltrona buscando algo - Como foi a viagem?

- Foi boa, todo trajeto foi muito nostálgico, parece que não vinha aqui a eras no passado - Tomou um gole de suco, delicioso.

- O Zé foi comprar o material pra fazer aquela muqueca que você gosta, ele disse que vai caprichar.

- Não precisava Loren...

- Que isso porra - cortou Fernando vestindo a camisa que acabara de pegar - Quantos anos que você não aparece por aqui, relaxa pô, é o mínimo que podemos fazer.

- Você pretende ficar quanto tempo?

- Uai, eu... - Joaquim olhou pro Fernando, lembrando-se que ele pediu em seu e-mail para não contar a razão pela qual viria aqui em Marataízes - ... acho que uns poucos dias - voltou a olhar para Lorena - não quero incomodar vocês.

- Incomodar? pelo amor de deus kim! Você é sabe que é super bem vindo e sabe que pode ficar o quanto quiser viu?

Dito isso, Lorena se levantou e foi para a cozinha, deixando apenas um rastro de flores por onde andava.

Joaquim se encostou no sofá, deixou a mochila de lado na poltrona e apenas olhou pro Fernando.

- E então... - Começou Joaquim aproveitando o barulho do feijão sendo refogado na cozinha impedindo Lorena de ouvir a sala - O que estou fazendo aqui?

A expressão de Fernando mudou.

- Espera, ainda não é hora - virou-se pra cozinha - Mãe! qual quarto é o dele?

Alguns segundo se passaram em silêncio e Lorena apareceu na porta da cozinha trazendo consigo o aroma delicioso da comida que estava preparando.

- O quê?

- O Joaquim mãe, qual quarto ele vai ficar?

- A sim - ela olhou pra Joaquim e ficou pensativa por alguns segundos - bem, o quarto do fundo está uma bagunça, eu não tive tempo de arrumar, deixe ele no quarto da Gabriela mesmo, ela não vem esse fim de semana, depois arrumo o outro - E voltou para cozinha.

Fernando se levantou, e Joaquim entendeu que era para pegar a mochila e segui-lo.

O quarto da Gabriela ficava entre o da Lorena e do Fernando, e apesar de ela já ser uma mulher crescida o quarto ainda tinha muitas bonecas e decoração de menina, tudo rosa.

- Cara, as bonecas velhas da gabi estão no armário se você quiser pode brincar com elas... au! - Uma cotovelada do amigo o fez calar a boca.

Joaquim deixou a mochila perto da cabeceira da cama e sentou-se para sentir o colchão, era bem confortável, olhou para a penteadeira e viu uma foto de uma jovem mulher, linda, ruiva, com sardas no rosto e olhos verdes... da mãe, abraçada com Fernando.

- Cara, para de olhar assim pra minha irmã! - Joaquim olhou pra Gabriel que exibia uma feição severa, densa e sombria - Não toque na minha irmã - e deu um soco no ombro do Joaquim

- O seu corno, você e ela são como irmãos pra mim - As palavras saíram da boca de Joaquim enquanto ele imaginava a reação de Gabriel se soubesse sua história com Lorena.

- Eu sei pô! to de zoação. - Voltou a sorrir - Se arruma aí bichona, estamos lá em baixo te esperando pra almoçar.

***

- A cidade está diferente, porém não muito - Comentou Joaquim após dar uma olhada nas pequenas casas do centro com no máximo dois andares.

- É, por aqui os prédios não crescem muito, acho que a prefeitura não estimula muito as coisas por aqui, eu acho bom.

A caminhada depois do almoço pela cidade estava muito boa, revendo as praias tão frequentada no tempo de sua adolescência e infância.

- Daqui você consegue ver.

Fernando parou a quando chegaram a uma pequena praia vazia, entre duas rochas e olhou para a maior do lado esquerdo que interrompia a continuidade da praia, era uma pedra alta, mas havia meios fáceis de subi-la, lá em cima havia uma quitanda e do outro lado, onde a rocha se encontrava com o mar tinha uma cruz.

- O que você quer que eu veja?

- Cara, tem alguma coisa muito estranha acontecendo nessa praia, lá perto da rocha...

- Não vejo nada.

- Claro que não! - Fernando falava bem baixo, quase sussurrando como se o que falasse fosse proibido ou um tabu - Mas reparem, antigamente a pedra da praia da cruz vivia cheia, está vendo  que não tem ninguém lá?

De fato, não havia, até o quiosque, agora que Joaquim havia reparado melhor, estava fechado - E algumas coisas do seu passado, coisas que ele estava evitando começaram a surgir.

- Você conhece as pessoas - Continuou Fernando - Elas acham que há alguma maldição lá.

- Mas você não acredita nisso.

- Claro que não, fantasmas? zumbis? aliens? porra bicho! - Fernando fez uma pausa virou-se para a mesma direção que Joaquim estava virado - Há alguma coisa lá...

- E você acha que é aquilo?

- Não sei... Só estou dizendo que se for, bom, eu não sei o que fazer.

- Houve algum desaparecimento?

- Três, no intervalo de um mês cara, dois garotos e por último uma menina semana passada, e então a prefeitura isolou os acessos à pedra com as faixas, alguns vândalos as retiraram mais ninguém tem coragem de ir lá mais - Fernando deu um tempo como que para Joaquim absorver a informação - E então, fiz certo ao te chamar?

- Fez...

Daquela outra vez, os dois foram pegos de surpresa, não sabiam o que estava acontecendo mas, acabaram sobrevivendo devido ao sacrifício de alguns de seus melhores amigos, fugiram, não pensaram apenas correram, mas e se aquelas... pessoas voltaram a fazer o que faziam, Joaquim não poderia virar as costas, afinal naquela época ele era só um adolescente, mas ele treinou a vida inteira para se vingar daqueles lunáticos.

- Não foram os vândalos que retiraram as faixas.

- Você diz... - Fernando olhou para Joaquim - Entendi. Cara, já foi difícil demais uma vez, sabe quantas noites eu fiquei sem dormir? e para explicar a cicatriz pra minha mãe?

- Parece que você não se lembra, mas eu estava lá também e passei por tudo...

- O quê?? - Fernando parecia irado - Foi o seu rim eles estavam jantando? Você viu! você estava lá! eles me abriram e fizeram uma sopa com meu RIM! caralho cara não ACREDITO QUE ISSO ESTEJA ACONTECENDO DE NOVO!!

Joaquim deu um puxão em Fernando.

- Calma, e se tentarmos a polícia novamente?

- Polícia? aff... aqueles filhos da puta riram alto na minha cara quando falei sobre o que aconteceu com eles...

- Você falou com eles?

Fernando atravessou o calçadão colocou uma sandália na beirada e sentou-se em cima dela, com os pés na areia sob a outra sandália por baixo para proteger do calor.

- Eu falei, eu estava desesperado, você tinha ido embora, eu não dormia a noite com medo deles voltarem, eles nunca voltaram, mas... mas... -  permaneceu um tempo em silêncio - ... depois que os corpos sumiram, eles me procuraram novamente, eu contei a história de novo, mostrei as cicatriz, eles anotaram tudo, disseram para que tentar esquecer esse assunto e foram embora.

Joaquim pôs a mão no ombro de Fernando.

- Cara, estou aqui agora e vou resolver isso, se a polícia está de alguma forma encobrindo ou desconsiderando essa história, não importa, de uma forma ou de outra não quero que ninguém passe pelo que passamos;

Fernando olhou pro alto, buscando Joaquim, seus olhos embotados de lágrimas.

- Eu te devo isso, foi ideia minha ir nadar naquela noite, foi tudo culpa minha.

Fernando se levantou, enxugou os olhos se pôs a caminhar no calçadão de volta para casa junto com Joaquim.

A noite chegou, e com ela suas esperanças infantis, e seus medos reais.

Da janela do quarto de Gabriela, Joaquim olhava a paisagem, que com exceto de alguns novos prédios pouco mudara de 10 anos pra cá.

Todo aquele terror vivido, suprimiu em Joaquim tudo de bom que estava acontecendo até então em sua vida. Um menino grande e bonito, muito saudável, considerado muito maduro e sábio para sua idade, não soube o que fazer frente ao horror dos fatos e então correu, e viveu todos os seus anos assombrados por fantasmas que agora, com o e-mail recebido do amigo que viveu o mesmo horror resolveu voltar e enfrentar.

Um barulho a baixo chamou a atenção do rapaz, era o pai de Fernando saindo dizendo que iria dar um jeito. Passado alguns poucos minutos, a porta do quarto se abriu, e com o som dela se abrindo o coração de Joaquim parecia que iria explodir de tão acelerado.

- Ei - Disse a suave voz - Você está bem?

- Si... sim, estou sim. - Como um homem feito pode ser tão infantil em momentos como estes.

Lorena entrou no quarto, já sem o avental deixando sua silhueta bem definida a mostra dentro do vestido que possuía uma saia rodada.

 - Depois que você e Fernando voltaram da caminhada que fizeram de tarde, você veio pra cá e não desceu mais, fiquei preocupada.

- É... retornar aqui me encheu de nostalgia, foram tantas coisas vividas nessa cidade... coisas muito ruins, coisas inacreditavelmente boas... Todas elas pareciam tão distante, enterradas no meu passado, mas estão agora aqui, bem diante de meus olhos.

O rosto dela corou.

- Espero que nossa pequena história faça parte das coisas "inacreditavelmente boas" - disse com um sorriso singelo.

Como ela era linda.

Ela se levantou e foi em direção ao Joaquim que sentiu mais fortemente seu perfume de flores, se acomodou na janela ao lado do rapaz.

A franja de seu cabeço prateado balançada com a brisa, o ar em sua volta parecia mais leve...

- Eu ainda não sei bem como que foi que aconteceu, talvez tenha sido minha carência e você mesmo ainda jovem me ouvindo desabafar, tão maduro para sua idade... nós fomos realmente felizes naquela época não é?

- Sim, eu me apaixonei por você, digo, sempre fui apaixonado por você. - Joaquim olhou de relance para ela, o sorriso, a leveza.. - Eu lembro de ter dito que iria casar com você quando tinha uns 8 ou 9 anos.

O pequeno sorriso agora virou uma doce gargalhada, feliz pela lembrança recordada.

- Eu lembro, naquele dia, eu disse que já era sua garota e você ficou todo orgulhoso.

- Acho que até hoje, eu ainda sou aquela criança... eu entendo melhor as coisas hoje, e quantas vezes pensei em voltar para te ver...

- Você se foi e eu não compreendi muito naquela época, mas guardei minhas lágrimas, tudo que você me disse, tudo que fizemos me ajudou naquele momento e eu sabia que você era jovem de mais, eu não poderia e não me permiti ter muitas ilusões, mas de uma forma que até hoje não sei muito bem eu te amei.

- Eu era um garoto... Mas o que me fez correr não foi você, na verdade até hoje quando durmo e fecho os olhos eu te vejo naquela tarde, na praia... Mas não tinha forças para voltar, para te puxar pelos braços e te pegar pra mim, eu sofri tanto...

Lorena virou-se para Joaquim, seus olhos verdes inundados, com sua mão tocou o rosto dele e sorriu. O tempo parecia ter parado

Joaquim a puxou e a abraçou, um abraço forte, que carregava toda a paixão, todos os sentimentos misturados afundou seu rosto em seu ombro e chorou como uma criança, uma criança que não pudera ser. Ela retribuiu com um abraço ainda mais forte, deixando claro que dentro de seu coração ainda havia muito amor por ele, o acalentou.

- Desculpa - as lágrimas e soluços tomaram conta de Joaquim.

- Desculpa por que?

Ao ouvir isto, Joaquim se recompôs, percebeu que as lágrimas também corriam no rosto dela. Eram tantas palavras que queria sair de sua boa, mesmo ela estando casada agora, uma vontade louca de pega-la pra si e fugir novamente, mas levando-a consigo.

Antes que pudesse pensar ou dizer algo foi surpreendido pelo beijo, tão carinhoso, tão quente, úmido e salgado.

Afastaram as bocas, tocaram o rosto um do outro, com muito carinho ela afastou suas lágrimas, olhos fixos um no outro, exatamente como naquela época, exatamente como sonhara todos estes anos.

- Obrigado Kim, por tudo que você fez por mim e pela minha família.

A melodia de sua voz o puxou de volta pra terra, quanto tempo havia se passado? um infinito que nunca era o suficiente...

- Desculpe... - A voz não saía direito - Desculpe por não ter sido um homem forte o suficiente para superar o que tinha que superar e voltar pra vo...

Ela encostou o dedo indicador em sua boca silenciando-o.

- Não se torture - sua voz parecia música -  o que vivemos ficará para sempre no meu coração, e apesar de você ter seus mistérios e seus fantasmas, eu também tenho uma vida bem diferente agora, mas quem sabe em outra vida não podemos ficar juntos?

- Quem sabe.

Ele enxugou o rosto dela em um último momento de carinho, ela sorriu, o beijou mais uma vez com um beijo curto, singelo e carinhoso e virou-se para a porta para sair.

- Não se esqueça de uma coisa - Começou Joaquim, ela se virou da porta para olhar - Eu sempre te amei e e amarei... as coisas, as... outras coisas que tenho que fazer eu...

- Não precisa falar se você não quiser - interrompeu ela mas de maneira gentil -  mas se quiser sabe onde me encontrar - era incrível como ela podia lê-lo perfeitamente - Com um beijo jogado no ar e uma piscada de olhos ela se virou e fechou a porta atrás de si.

O perfume de floram inundava o quarto deixando registro da presença dela.

Os olhos vermelhos e afogados em lágrimas do rapaz se dirigiam à lua, muito brilhante, estava cheia naquela noite. E como uma musica doce de piano e violão que esmaece lentamente a medida que os acordes se distanciam, Joaquim entendeu que o que aconteceu foi mágico e incrível, o marcou até aqui e certamente estará com ele até o fim da vida, mas que de agora em diante deveria olhar para frente, mesmo que para frente, significasse... a caverna.

Enxugando as lágrimas do rosto, Joaquim abriu a mochila, pegou suas coisas, trocou de roupa e calçou sua bota. Colocou a faca de pesca que havia ganhado a muito tempo do pai de Joaquim com sua bainha dentro de sua bermuda atrás em baixo da camisa de forma a ficar invisível por fora.

Olhou mais uma vez pra lua, e saiu.

Quando estava na porta de saída, viu Lorena sentada na sala com a Tv ligada, mas ela não estava olhando para Tv. Abriu a porta e saiu se deparou com o zé, o marido dela.

- Opa vai dar uma saída? - Ele e seu sorriso constante.

- Sim, vou dar uma caminhada, mas se preocupe, eu volto pra muqueca - mentiu - avise Fernando quando ele voltar da faculdade.

Ar noturno estava muio agradável e nostálgico, a agitação do mar trazia a maresia que reluzia em torno das lâmpadas dos postes, o vento as vezes soprava forte, mas na maior parte do tempo empurrava uma brisa suave e tranquila.

As ruas estavam desertas e nem era tão tarde, os fatos assustadores juntamente com a cultura do medo em que vivemos faz com que as pessoas se recolham frente a algo desconhecido.

Mas não Joaquim, não ali, não agora.

A mistura de pedra, terra e mato que compunha a subida da rocha da praia da cruz se tornava um pouco mais ingrime a cada passo. Um grito vindo de longe chamou a atenção do rapaz que olhou e não viu ninguém. Talvez alguém dos prédios distantes estivesse vendo ele ali e por medo tenha se assustado.

O vento ali era mais forte, um pequeno arrepio passou pela coluna de Joaquim que não deixou-se intimidar, talvez, por ter a vã esperança de morrer e aguardar Lorena para viverem uma vida no futuro, talvez porque tenha fugido no passado desse trauma e percebeu que não adiantou ficar remoendo durante toda sua vida até aqui.

Conferiu se a faca estava bem presta nas suas costa, olhou para onde as ondas quebravam no mar agitado, viu a cruz vermelha fincada entre as pedras, lembrou-se do dia em ele a fincou ali, lembrou-se de seus amigos que morreram nas cavernas para que ele pudesse sobreviver e salvar Fernando, olhou para lua, sua divindade particular, fez uma prece a ela, e se jogou no mar.


***


As gotas de água fria em seu rosto o despertou, uma dor de cabeça insuportável o tomou de assaltou, então rolou no chão gelado com as mãos na cabeça se contorcendo de dor e sentiu algo úmido, será que era sangue? mas estava muito escuro ali para saber.

Quando teve forças para se apoiar e se sentar, ao se apoiar no chão o sentiu também úmido, será que seu sangue está por toda parte?

A dor na cabeça parecia diminuir um pouco, e um barulho distante chamou atenção.

Tateando o chão lamacento ele esticando a mão para frente tentando encontrar algo, sentiu uma barra fria de metal bem enferrujado e começou a tatear em volta descobrindo outras barras. Uma cela.

Um barulho de pedra arrastando veio da esquerda e um feixe de luz amarela e trêmula iluminou o que parecia ser um corredor entalhado nas pedras, além das barras da cela. Joaquim olhou para o fundo do local onde estava mas a fraca luz não chegava lá e um barulho vindo da escuridão o fez levar a mão às costas procurando a faca que milagrosamente estava lá.

Tudo estava se repetindo, exceto seu treinamento, sua vida de lutas a qual se dedicou afim de se tornar um guerreiro.

Passos de botas na lama se fizeram ouvir e da luz brotou uma silhueta gorda e esticada que a cada passo se concentrava na parede oposta irregular do precário corredor.

- He he he he - Uma voz grossa, gutural quase um coaxar, se confundia entre riso e soluço - Uno mas... dejame ver, dejame ver.

O barulho dos passos aumentaram até que uma figura imensamente gorda, morena, suja , careca e com uns 3 ou 4 queixos, trajando uma roupa que a muito fora branca, e bota pretas de borracha se aproximou da grade, Joaquim recuou para as sombras em silêncio, segurou o punho de sua faca de pesca sem tirar da bainha e ou parou de respirar ou respirou muito pouco.

- No veo nada en ese agujero de mierda! Vicente trae luz aquí abajo ahora!

Joaquim se encolheu mais ainda, o som que saia da garganta do homem mais parecia a voz de um ogro.

A luz ao fundo começou a fortalecer e Joaquim achou melhor retirar a mão da faca para não levantar suspeitas no momento e fingiu estar desacordado quando a luz da lamparina incidiu sobre sua pele.

Os dois homens conversaram alguma coisa em espanhol mas rápido demais para que Joaquim compreendesse. E foram embora.

As sombras se foram, o barulho de pedra arrastando se  apresentou mais uma vez levando consigo a luz até culminar no silêncio, e o gotejar da água se tornar o som proeminente novamente.

Ali na escuridão, Joaquim não sabia exatamente como agir, tateou por toda a cela sentindo as pedras desiguais, encontrou um dos muito locais por onde a água entrava, e só ao provar água se lembrou de que estava em alguma caverna em baixo do mar.

Tateou pela grade até que encontrou uma grande tranca, pegou sua faca e tentou com um certo desespero abrir a tranca com ela, desistiu obviamente após poucas tentativas.

Então parou, pensou um pouco e ajustou a bainha da faca de maneira inclinada de maneira que ficasse mais fácil sacar, colocou-a no bolso da perna sem a bainha, e retirou rapidamente algumas vezes como que fazendo algum teste, cada vez conseguiu sacar mais rápido.

Não sabia ao certo quanto tempo havia passado, apesar de que a adrenalina tenha se mantido constante e o nível de estresse e de atenção estivesse ligados no máximo.

O barulho da pedra começou novamente, e uma pequena fresta da luz começou a crescer novamente.

Dessa vez a sombra era magra, e estava cambaleante, parecia se apoiar nas paredes com alguma dificuldade. Joaquim se levantou e pôs-se em posição de reação. A sombra pareceu reagir ao barulho que Joaquim fez enquanto se ajustava.

Lentamente com passos incertos, a sombra adentrou ao corredor sombrio, as mãos da pessoa que projetava a sombra agarrou a grade de uma vez, eram mãos pequenas magras e estavam repletas de sangue.

Joaquim se aproximou um pouco da grade, e pode ver melhor era uma garota, estava muito ferida com cortes por todo corpo, a outra mão faltava alguns dedos, mas ainda assim, por alguma força sobre-humana ela portava um molho de grandes chaves, com muito esforço ela tentou jogar as chaves para dentro da cela mas as chaves bateram na grade e caíram no chão lamacento.

Rapidamente Joaquim pegou as chaves e procurou desesperadamente a que abriria a cela dele, na quarta tentativa a chave encaixou e virou, o barulho do metal enferrujado foi estrondoso, e logo após conseguir sair ele ouviu vozes aos berros por trás do buraco iluminado entre as rochas no início do corredor.

Ao voltar os olhos para a garota, o rapaz a percebeu tremendo, estava entrando em choque, ele se agachou perto de sua libertadora, verificou que ela estava com marcas de incisões profundas, não havia nada que ele podia fazer para salva-la tinha perdido muito sangue, ele olhou nos olhos revirados dela, mau iluminados pela fraca luz, mas ainda assim fez questão de memorizar seu rosto e agradecê-la pelo resto da vida, mesmo ela não tendo mais consciência do que fez.

Apos o fim dos espasmos da mulher, ele a deitou, fechou seus olhos, verificou seus bolsos para ver se havia algum documento, mas não encontrou nada. A sua salvadora sem nome havia morrido. Provavelmente era a garota a qual Fernando se referia como a última a desaparecer, depois que esse pesadelo acabar, Joaquim se encarregou de voltar e lava-la até sua família.

Os gritos e barulhos lá atrás sessaram e projetaram sombras na polca luz da caverna, Joaquim se arrastou pra trás, para as sombras tentando fazer o mínimo de barulho possível, deixando apenas o corpo da mulher no campo de visão, calmante e se apoiando nas pedras nas suas costas ele seguiu para o início do corredor, as sombras pareciam estar com certo medo de entrar, falam coisas incompreensíveis devido ao limitado espanhol de Joaquim.

Chegando na parede de pedra que servia de porta para o corredor na caverna, esperou alguns segundos, a sombra pareceu se distrair brigando com alguém, enquanto falavam Joaquim aproveitou para sacar a faca e empunha-la quando a sombra tornou a olhar para dentro da caverna, Joaquim aguardou calmamente, controlando a respiração até que uma mão entrasse e se apoiasse na pedra, provavelmente para abri-la, o barulho de pedra rolando começou e quando percebeu que havia espaço para passar, Joaquim enfiou a faca na garganta do homem que não teve change de se defender.

Ao fundo dos grunhidos abafados do homem esfaqueado Joaquim ouviu um grito de susto e barulho de móveis se batendo como que caindo no chão. Então ele puxou a faca de dentro da garganta do homem que segurava a pedra, limpou a lâmina na própria camisa, e passou por cima do corpo ainda tremendo do espanhol, seus olhos demoraram a se acostumar com a luz, ele não havia pensado nisso, poderia facilmente ser atacado agora, mas aparentemente o outro indivíduo fugiu dali.

Quando seus olhos voltaram a enxergar, se viu em um guardo rústico, com coisas de madeira, e paredes ainda que de pedra  um pouco mais trabalhadas. Havia uma grande bagunça ali, como que de alguma briga, e as manchas no chão deixaram claro onde a salvadora anônima do Joaquim havia conseguido as feridas de morte.

A porta de madeira pesava que levava a não se sabe onde, parecia perigosa, o que aguardava lá fora? Joaquim pegou a tocha na parece, acertou um chute no centro da grande porta de madeira que se abriu para fora e então jogou a tocha lá e viu que era um grande corredor de cimento, muito escuro também. Pegando fôlego como alguém que estaria preste a mergulhar, Joaquim atravessou rapidamente a porta e correu para de trás da porta de madeira onde a luz não batia.

Olhou com mais calma par ambos os lados do corredor, a sua direita havia uma grade, com alguma luz fraca ao fundo, ele se lembrou das chaves que sua salvadora lhe dera, deveria ter carregado consigo.

O outro caminho parecia levar a algum lugar mais limpo, lentamente Joaquim deu o primeiro passo, jogou a tocha de volta pra dentro do quarto de onde sairá e se envolveu nas sombras do corredor.

Caminhando para frente ele ouviu passos e vozes vindo de mais adiante, não se intimidou, já que estava ali era pra terminar o serviço, ou morrer tentando.

O corredor fazia uma curva reta, ele chegou até a curva e viu um sala mau iluminada a diante, a luz parecia vir do outro lado da parede em que ele estava encostado. Um dom longínquo de botas se fez ouvir, calmamente Joaquim deu alguns passos lentos, mas seguros a diante, e o barulho de passos de botas se fez mais forte até que parou.

Joaquim sabia que havia alguém ali a alguns centímetros dele do outro lado da parece, ele inverteu a maneira como segurava a faca, fazendo com que a lâmina ficasse para trás, deu um passou pra frente quase como um pulo e jogou a mão para trás do outro lado do muro às cegas, mas quando ouviu um grito e sentiu a faça acertando em algo macio soube que venceu, mas o grito foi seguido de um disparo e Joaquim sentiu como que alguma coisa tivesse pulado do chão e mordido sua coxa direita.

Então ele puxou a faca e enfiou um pouco mais a cima, não sabia a onde e quando olhou tinha enfiado a faca dentro da bota do homem com tanta força que agora ele tremia, sua arma havia caído no chão depois do disparo mas ele agora estava morto.

A dor na perda era muita, Joaquim pegou a arma do homem morto, era uma automática, e estava com pente cheio. Se arrastando até o canto mais escuro, ele tateou a perna e sentiu dois buracos, a bala atravessou a cocha.

A dor era muita, mas não o suficiente para apaga-lo, sua mente estava determinada. Ele rasgou sua camisa e enrolou a perna com a faixa de pano pondo-se de pé novamente e caminhando, agora com dificuldade mas ainda no escuro.

Cada tocha que encontrava ele apagava, cada curva de corredor ele observava minutos antes de atravessar de fato.

No próximo vão do corredor que ele entrou havia uma porta ele verificou novamente a arma e empurrou a porta, Ela não cedeu, então Joaquim pensou que todos a essa altura já sabiam que havia um jantar solto pelos corredores e atirou na fechadura da porta fazendo ela se abrir.

Quando a porta abriu o suficiente Joaquim foi recebido com um tiro que o acertou bem no abdômen. Sua arma caiu no chão, ele perdeu o senso de equilíbrio com a dor e caiu encostado na parede de trás de si e escorreu pro chão.

A dor era muita, com muito custo Joaquim conseguia manter um resto de consciência o suficiente para sentir sua vida escorrendo pelos dedos mesmo com o máximo de pressão que fazia em cima da ferida. Pelo som dos passos, o gordo se aproximava, a gargalhada gutural ecoava no corredor.

Estranhamente a dor começou a passar, o som das botas e das gargalhadas do homem gordo se distanciaram, e tudo que Joaquim sentia era com se estivesse sendo puxado pra baixo, sem dor, sem pressa, sem adrenalina... Apenas o sorriso de Lorena com seus cabelos prateados naquele dia maravilhoso, a brisa do mar levando as cortinas de seda para lá e para cá.

A saia rodada, o perfume, as lágrimas e o sorriso e então o beijo...


***

As luzes eram fortes demais, os olhos doíam muito, e com o passar dos segundos Joaquim percebeu que não só os olhos doíam mais sua barriga e sua perna parecia ter sido trituradas.

Ainda com visão embaçada ele olhou em volta, parecia uma mistura de cozinha com sala de cirurgia, com muita dificuldade e dor, Joaquim olhou para si e se viu nu com a ferida na barriga e na coxa explícitas, mas pelo menos ainda estava inteiro.

 Um panico repentino tomou conta de si, era como se todo o medo suprimido até agora tivesse se transformando em um monstro e o tivesse engolido, seu corpo tremia em cima da mesa fria, sem muita força para se levantar, havia uma agulha espetada em sua veia trazendo remédio de uma bolsa de soro, porque eles o queriam vivo? Quem eram eles? que droga!

Joaquim puxou a agulha fincada em seu braço pra longe e rolou para cair no chão. Ele ficou espantado ao saber que era possível sentir mais dor do que estava sentido.

Virou-se de barriga pra cima e tentou se sentar, mas seu diafragma deve ter sigo rompido pois cara movimento parecia uma faca entrando novamente em sua barriga.

Quando conseguiu pôs-se sentado sentiu o sangue escorrendo novamente em sua barriga, menos, mas constante.

Virou-se para o lado tentando se  levantar mais conseguiu no máximo ficar de quatro, respiração pesada, difícil, dolorosa, sofrida...

Um barulho no lado de fora injetou uma dose cavalar de adrenalina em suas veias, e a mistura de pânico e horror lhe deram forças para levantar não sem antes derrubar uma pequena estante de instrumentação cirúrgica  no processo que caíram sobre seus pés provocando alguns cortes.

- AAAAAAAARRRGGGGGG! - Gritou finalmente exteriorizando todo seu sofrimento acumulado.

Joaquim agarrou um bisturi e com extrema dificuldade de manter-se de pé e se apoiando em tudo que poderia servir ele rumou para a porta.

Quando estava quase lá, um homem com roupas brancas abriu a porta e se espantou ao ver o Joaquim de pé. Não por reflexo ou treinamento, mas por fraqueza extrema, Joaquim caiu em cima do homem com o bisturi apontando para sua barriga, o peso de seu corpo empurrou o bisturi para dentro da barria do homem que gritou, e com esforço Joaquim, beirando a falta de consciência puxou o bisturi e fez vários outros furos até o homem parar de gritar.

O corredor parecia limpo, talvez estivesse realmente em um hospital e a ideia de ter matado um médico apavorou Joaquim.

Ele começou toda a luta para se por de pé novamente se apoiando primeiro no peito perfurado do homem morto, depois no vão da porta, então colocou desta vez o joelho no peito do defunto e com a outra perna consegui se por de pé.

A visão muito turva, o impedia de distinguir as coisas distantes, mas uma outra porta que estava ali perto ele conseguiu atravessar caindo mais uma vez. Parecia um vestiário pequeno, havia um amontoado de coisas em cima de um banco e ao se arrastar para proximo percebeu que eram suas roupas, tateou por sua faca de pesca e a encontrou.

A cada vez que caia devia lutar muito para se por de pé novamente, e agora não foi diferente, apoiou-se na cadeira cumprida e após alguns gritos e quase desmaios conseguiu se por de pé.

Um brilho prateado no canto da porta o despertou para a realidade que a dor profunda tentava retirá-lo. Uma arma, uma arma!

Passos tortos, e manchas de sangue em todos os lugares, mas a arma esta na sua mão.

Muitos passos dessa vez se ouviram, 3 homens, incluindo o muito gordo viraram o corredor ao fundo, eles pararam atônitos por alguns segundos ao ver a cena do outro homem morto na porta da sala de cirurgia, seus olhos olharam para o corpo e para a mancha de sangue que se arrastava no chão e nas paredes até a sala do vestiário, lá, viram um homem nú de pé, imundo de sangue e suor, apontando uma arma para eles.

Antes que pudesse reagir as balas atravessaram seus corpos aleatoriamente, a única coisa que Joaquim queria era que todos estivessem mortos, não importa a ordem.

Após esvaziar seu pente, Joaquim continuou a apertar o gatilho seguidas vezes ouvindo o barulho baixo de estalo sem balas da arma.

Quando percebeu que estavam todos mortos, que sua arma estava vazia ele a deixou cair.

Caminhou cambaleante pelo corredor, deixando sua vida, vermelha e líquida para trás tanto no chão quanto nas paredes, ele olhou para frente e viu Lorena, parada de pé com a mão estendida pra ele, atrás dela havia areia, muita areia, e um mar ao fundo, magnífico, o vento balançava sua saia e seus cabelos prateados, o seu perfume mesclado com a maresia.

Ao estender sua mão para segurar na mão dela, seu corpo caiu no chão, pesado e imóvel e sua consciência se desfez.