A estrada antes tão longa já exibia trechos conhecidos, como o barraco onde se vendia doces de todos os tipos e pingas bem amargas, também havia a loja de bicicletas, onde parara a muitos anos para concertar seu pneu furado quando na época havia decidido fazer toda essa trajetória de bicicleta.
Outras coisas na chegada da cidade também lhe eram familiares, mas ele não sabia dizer ao certo, talvez o fim da avenida, as construções, enfim, o ambiente no geral.
O ônibus agora fazia seu translado dentro da cidade procurando pela rodoviária, e a única coisa que passava por sua cabeça era o cheiro do mar... quantos anos, pareciam séculos que não voltava a pequena cidade de Marataízes.
Na saída do ônibus, com mochila nas costas, sem bagagens extras, Joaquim tomou uma gole ar do litoral, se espreguiçou e olhou ao seu redor. A pequena rodoviária parecia ainda menor do que ele se lembrava e as ruas, apesar do maior número de pessoas e comércios ainda tinha, tudo isso tinha um ar muito romântico, e tudo remetia a ela...
- Olá pessoas!
Todos dentro da casa, olharam com surpresa para a porta e viram a figura alta, esquia e muito branca, de cabelo preto, curto e barba mau feita.
- Joaquim! - gritaram em uníssono enquanto se apressavam em se aproximar para abraçar o rapaz.
Um homem, alto, moreno, no auge de seus quase 50 e exibindo uma bela circunferência abdominal se adiantou e abraçou primeiro o cansado recém chegado.
- Que saudades rapaz! Por onde você andou esse tempo todo? ta magro heim? tem comida lá de onde você vem não!? - Todas as perguntas seguidas por grandes rizadas.
- A! deixa ele em paz zé! - disse uma mulher magra, se esgueirando no pequeno espaço da porta, de cabelos prateados e lisos, presos em um rabo simples e trajando um avental por cima de um vestido branco e florido que cobria até quase o joelho, em seu rosco algumas rugas que não conseguiam esconder o quanto ela continuava linda - ... Ele está cansado venha kim, me dê um abraço e vamos entrar.
Após a recepção acalorada guiaram o recém chegado até a sala onde da outra porta vinha um rapaz de encontro, moreno, magro com cabelos pretos caindo em franjas no rosto, trajando apenas um short de banho, que ao ver quem havia acabo de chegar, após uma pausa no caminhar, se adiantou e foi abraçá-lo.
- Seu filho da puta! você sumiu seu corno! - Era o jeito dele de dizer que estava com saudades.
- ... Pois é... vida cor...rida - tentou falar enquanto estava sendo espremido pelo amigo num forte abraço.
- Porra velho nem acredito que você veio, eu estava duvidando que vinha vi...
- Aqui kim, tome um suco, é de laranja com acerola - Impressionante, o quanto o coração de Joaquim ainda batia forte toda vez que Lorena se aproximava, o perfume de floral era sempre o mesmo e o sorriso no rosto também, a maneira como ela passava os dedos no cabelo para ajeitar a franja atrás da orelha... mesmo o tempo tendo agido um pouco, continuava tão linda como em seus sonhos - E então kim - ela se sentou na poltrona ao lado de Fernando que remexia ao lado da poltrona buscando algo - Como foi a viagem?
- Foi boa, todo trajeto foi muito nostálgico, parece que não vinha aqui a eras no passado - Tomou um gole de suco, delicioso.
- O Zé foi comprar o material pra fazer aquela muqueca que você gosta, ele disse que vai caprichar.
- Não precisava Loren...
- Que isso porra - cortou Fernando vestindo a camisa que acabara de pegar - Quantos anos que você não aparece por aqui, relaxa pô, é o mínimo que podemos fazer.
- Você pretende ficar quanto tempo?
- Uai, eu... - Joaquim olhou pro Fernando, lembrando-se que ele pediu em seu e-mail para não contar a razão pela qual viria aqui em Marataízes - ... acho que uns poucos dias - voltou a olhar para Lorena - não quero incomodar vocês.
- Incomodar? pelo amor de deus kim! Você é sabe que é super bem vindo e sabe que pode ficar o quanto quiser viu?
Dito isso, Lorena se levantou e foi para a cozinha, deixando apenas um rastro de flores por onde andava.
Joaquim se encostou no sofá, deixou a mochila de lado na poltrona e apenas olhou pro Fernando.
- E então... - Começou Joaquim aproveitando o barulho do feijão sendo refogado na cozinha impedindo Lorena de ouvir a sala - O que estou fazendo aqui?
A expressão de Fernando mudou.
- Espera, ainda não é hora - virou-se pra cozinha - Mãe! qual quarto é o dele?
Alguns segundo se passaram em silêncio e Lorena apareceu na porta da cozinha trazendo consigo o aroma delicioso da comida que estava preparando.
- O quê?
- O Joaquim mãe, qual quarto ele vai ficar?
- A sim - ela olhou pra Joaquim e ficou pensativa por alguns segundos - bem, o quarto do fundo está uma bagunça, eu não tive tempo de arrumar, deixe ele no quarto da Gabriela mesmo, ela não vem esse fim de semana, depois arrumo o outro - E voltou para cozinha.
Fernando se levantou, e Joaquim entendeu que era para pegar a mochila e segui-lo.
O quarto da Gabriela ficava entre o da Lorena e do Fernando, e apesar de ela já ser uma mulher crescida o quarto ainda tinha muitas bonecas e decoração de menina, tudo rosa.
- Cara, as bonecas velhas da gabi estão no armário se você quiser pode brincar com elas... au! - Uma cotovelada do amigo o fez calar a boca.
Joaquim deixou a mochila perto da cabeceira da cama e sentou-se para sentir o colchão, era bem confortável, olhou para a penteadeira e viu uma foto de uma jovem mulher, linda, ruiva, com sardas no rosto e olhos verdes... da mãe, abraçada com Fernando.
- Cara, para de olhar assim pra minha irmã! - Joaquim olhou pra Gabriel que exibia uma feição severa, densa e sombria - Não toque na minha irmã - e deu um soco no ombro do Joaquim
- O seu corno, você e ela são como irmãos pra mim - As palavras saíram da boca de Joaquim enquanto ele imaginava a reação de Gabriel se soubesse sua história com Lorena.
- Eu sei pô! to de zoação. - Voltou a sorrir - Se arruma aí bichona, estamos lá em baixo te esperando pra almoçar.
***
- A cidade está diferente, porém não muito - Comentou Joaquim após dar uma olhada nas pequenas casas do centro com no máximo dois andares.
- É, por aqui os prédios não crescem muito, acho que a prefeitura não estimula muito as coisas por aqui, eu acho bom.
A caminhada depois do almoço pela cidade estava muito boa, revendo as praias tão frequentada no tempo de sua adolescência e infância.
- Daqui você consegue ver.
Fernando parou a quando chegaram a uma pequena praia vazia, entre duas rochas e olhou para a maior do lado esquerdo que interrompia a continuidade da praia, era uma pedra alta, mas havia meios fáceis de subi-la, lá em cima havia uma quitanda e do outro lado, onde a rocha se encontrava com o mar tinha uma cruz.
- O que você quer que eu veja?
- Cara, tem alguma coisa muito estranha acontecendo nessa praia, lá perto da rocha...
- Não vejo nada.
- Claro que não! - Fernando falava bem baixo, quase sussurrando como se o que falasse fosse proibido ou um tabu - Mas reparem, antigamente a pedra da praia da cruz vivia cheia, está vendo que não tem ninguém lá?
De fato, não havia, até o quiosque, agora que Joaquim havia reparado melhor, estava fechado - E algumas coisas do seu passado, coisas que ele estava evitando começaram a surgir.
- Você conhece as pessoas - Continuou Fernando - Elas acham que há alguma maldição lá.
- Mas você não acredita nisso.
- Claro que não, fantasmas? zumbis? aliens? porra bicho! - Fernando fez uma pausa virou-se para a mesma direção que Joaquim estava virado - Há alguma coisa lá...
- E você acha que é aquilo?
- Não sei... Só estou dizendo que se for, bom, eu não sei o que fazer.
- Houve algum desaparecimento?
- Três, no intervalo de um mês cara, dois garotos e por último uma menina semana passada, e então a prefeitura isolou os acessos à pedra com as faixas, alguns vândalos as retiraram mais ninguém tem coragem de ir lá mais - Fernando deu um tempo como que para Joaquim absorver a informação - E então, fiz certo ao te chamar?
- Fez...
Daquela outra vez, os dois foram pegos de surpresa, não sabiam o que estava acontecendo mas, acabaram sobrevivendo devido ao sacrifício de alguns de seus melhores amigos, fugiram, não pensaram apenas correram, mas e se aquelas... pessoas voltaram a fazer o que faziam, Joaquim não poderia virar as costas, afinal naquela época ele era só um adolescente, mas ele treinou a vida inteira para se vingar daqueles lunáticos.
- Não foram os vândalos que retiraram as faixas.
- Você diz... - Fernando olhou para Joaquim - Entendi. Cara, já foi difícil demais uma vez, sabe quantas noites eu fiquei sem dormir? e para explicar a cicatriz pra minha mãe?
- Parece que você não se lembra, mas eu estava lá também e passei por tudo...
- O quê?? - Fernando parecia irado - Foi o seu rim eles estavam jantando? Você viu! você estava lá! eles me abriram e fizeram uma sopa com meu RIM! caralho cara não ACREDITO QUE ISSO ESTEJA ACONTECENDO DE NOVO!!
Joaquim deu um puxão em Fernando.
- Calma, e se tentarmos a polícia novamente?
- Polícia? aff... aqueles filhos da puta riram alto na minha cara quando falei sobre o que aconteceu com eles...
- Você falou com eles?
Fernando atravessou o calçadão colocou uma sandália na beirada e sentou-se em cima dela, com os pés na areia sob a outra sandália por baixo para proteger do calor.
- Eu falei, eu estava desesperado, você tinha ido embora, eu não dormia a noite com medo deles voltarem, eles nunca voltaram, mas... mas... - permaneceu um tempo em silêncio - ... depois que os corpos sumiram, eles me procuraram novamente, eu contei a história de novo, mostrei as cicatriz, eles anotaram tudo, disseram para que tentar esquecer esse assunto e foram embora.
Joaquim pôs a mão no ombro de Fernando.
- Cara, estou aqui agora e vou resolver isso, se a polícia está de alguma forma encobrindo ou desconsiderando essa história, não importa, de uma forma ou de outra não quero que ninguém passe pelo que passamos;
Fernando olhou pro alto, buscando Joaquim, seus olhos embotados de lágrimas.
- Eu te devo isso, foi ideia minha ir nadar naquela noite, foi tudo culpa minha.
Fernando se levantou, enxugou os olhos se pôs a caminhar no calçadão de volta para casa junto com Joaquim.
A noite chegou, e com ela suas esperanças infantis, e seus medos reais.
Da janela do quarto de Gabriela, Joaquim olhava a paisagem, que com exceto de alguns novos prédios pouco mudara de 10 anos pra cá.
Todo aquele terror vivido, suprimiu em Joaquim tudo de bom que estava acontecendo até então em sua vida. Um menino grande e bonito, muito saudável, considerado muito maduro e sábio para sua idade, não soube o que fazer frente ao horror dos fatos e então correu, e viveu todos os seus anos assombrados por fantasmas que agora, com o e-mail recebido do amigo que viveu o mesmo horror resolveu voltar e enfrentar.
Um barulho a baixo chamou a atenção do rapaz, era o pai de Fernando saindo dizendo que iria dar um jeito. Passado alguns poucos minutos, a porta do quarto se abriu, e com o som dela se abrindo o coração de Joaquim parecia que iria explodir de tão acelerado.
- Ei - Disse a suave voz - Você está bem?
- Si... sim, estou sim. - Como um homem feito pode ser tão infantil em momentos como estes.
Lorena entrou no quarto, já sem o avental deixando sua silhueta bem definida a mostra dentro do vestido que possuía uma saia rodada.
- Depois que você e Fernando voltaram da caminhada que fizeram de tarde, você veio pra cá e não desceu mais, fiquei preocupada.
- É... retornar aqui me encheu de nostalgia, foram tantas coisas vividas nessa cidade... coisas muito ruins, coisas inacreditavelmente boas... Todas elas pareciam tão distante, enterradas no meu passado, mas estão agora aqui, bem diante de meus olhos.
O rosto dela corou.
- Espero que nossa pequena história faça parte das coisas "inacreditavelmente boas" - disse com um sorriso singelo.
Como ela era linda.
Ela se levantou e foi em direção ao Joaquim que sentiu mais fortemente seu perfume de flores, se acomodou na janela ao lado do rapaz.
A franja de seu cabeço prateado balançada com a brisa, o ar em sua volta parecia mais leve...
- Eu ainda não sei bem como que foi que aconteceu, talvez tenha sido minha carência e você mesmo ainda jovem me ouvindo desabafar, tão maduro para sua idade... nós fomos realmente felizes naquela época não é?
- Sim, eu me apaixonei por você, digo, sempre fui apaixonado por você. - Joaquim olhou de relance para ela, o sorriso, a leveza.. - Eu lembro de ter dito que iria casar com você quando tinha uns 8 ou 9 anos.
O pequeno sorriso agora virou uma doce gargalhada, feliz pela lembrança recordada.
- Eu lembro, naquele dia, eu disse que já era sua garota e você ficou todo orgulhoso.
- Acho que até hoje, eu ainda sou aquela criança... eu entendo melhor as coisas hoje, e quantas vezes pensei em voltar para te ver...
- Você se foi e eu não compreendi muito naquela época, mas guardei minhas lágrimas, tudo que você me disse, tudo que fizemos me ajudou naquele momento e eu sabia que você era jovem de mais, eu não poderia e não me permiti ter muitas ilusões, mas de uma forma que até hoje não sei muito bem eu te amei.
- Eu era um garoto... Mas o que me fez correr não foi você, na verdade até hoje quando durmo e fecho os olhos eu te vejo naquela tarde, na praia... Mas não tinha forças para voltar, para te puxar pelos braços e te pegar pra mim, eu sofri tanto...
Lorena virou-se para Joaquim, seus olhos verdes inundados, com sua mão tocou o rosto dele e sorriu. O tempo parecia ter parado
Joaquim a puxou e a abraçou, um abraço forte, que carregava toda a paixão, todos os sentimentos misturados afundou seu rosto em seu ombro e chorou como uma criança, uma criança que não pudera ser. Ela retribuiu com um abraço ainda mais forte, deixando claro que dentro de seu coração ainda havia muito amor por ele, o acalentou.
- Desculpa - as lágrimas e soluços tomaram conta de Joaquim.
- Desculpa por que?
Ao ouvir isto, Joaquim se recompôs, percebeu que as lágrimas também corriam no rosto dela. Eram tantas palavras que queria sair de sua boa, mesmo ela estando casada agora, uma vontade louca de pega-la pra si e fugir novamente, mas levando-a consigo.
Antes que pudesse pensar ou dizer algo foi surpreendido pelo beijo, tão carinhoso, tão quente, úmido e salgado.
Afastaram as bocas, tocaram o rosto um do outro, com muito carinho ela afastou suas lágrimas, olhos fixos um no outro, exatamente como naquela época, exatamente como sonhara todos estes anos.
- Obrigado Kim, por tudo que você fez por mim e pela minha família.
A melodia de sua voz o puxou de volta pra terra, quanto tempo havia se passado? um infinito que nunca era o suficiente...
- Desculpe... - A voz não saía direito - Desculpe por não ter sido um homem forte o suficiente para superar o que tinha que superar e voltar pra vo...
Ela encostou o dedo indicador em sua boca silenciando-o.
- Não se torture - sua voz parecia música - o que vivemos ficará para sempre no meu coração, e apesar de você ter seus mistérios e seus fantasmas, eu também tenho uma vida bem diferente agora, mas quem sabe em outra vida não podemos ficar juntos?
- Quem sabe.
Ele enxugou o rosto dela em um último momento de carinho, ela sorriu, o beijou mais uma vez com um beijo curto, singelo e carinhoso e virou-se para a porta para sair.
- Não se esqueça de uma coisa - Começou Joaquim, ela se virou da porta para olhar - Eu sempre te amei e e amarei... as coisas, as... outras coisas que tenho que fazer eu...
- Não precisa falar se você não quiser - interrompeu ela mas de maneira gentil - mas se quiser sabe onde me encontrar - era incrível como ela podia lê-lo perfeitamente - Com um beijo jogado no ar e uma piscada de olhos ela se virou e fechou a porta atrás de si.
O perfume de floram inundava o quarto deixando registro da presença dela.
Os olhos vermelhos e afogados em lágrimas do rapaz se dirigiam à lua, muito brilhante, estava cheia naquela noite. E como uma musica doce de piano e violão que esmaece lentamente a medida que os acordes se distanciam, Joaquim entendeu que o que aconteceu foi mágico e incrível, o marcou até aqui e certamente estará com ele até o fim da vida, mas que de agora em diante deveria olhar para frente, mesmo que para frente, significasse... a caverna.
Enxugando as lágrimas do rosto, Joaquim abriu a mochila, pegou suas coisas, trocou de roupa e calçou sua bota. Colocou a faca de pesca que havia ganhado a muito tempo do pai de Joaquim com sua bainha dentro de sua bermuda atrás em baixo da camisa de forma a ficar invisível por fora.
Olhou mais uma vez pra lua, e saiu.
Quando estava na porta de saída, viu Lorena sentada na sala com a Tv ligada, mas ela não estava olhando para Tv. Abriu a porta e saiu se deparou com o zé, o marido dela.
- Opa vai dar uma saída? - Ele e seu sorriso constante.
- Sim, vou dar uma caminhada, mas se preocupe, eu volto pra muqueca - mentiu - avise Fernando quando ele voltar da faculdade.
Ar noturno estava muio agradável e nostálgico, a agitação do mar trazia a maresia que reluzia em torno das lâmpadas dos postes, o vento as vezes soprava forte, mas na maior parte do tempo empurrava uma brisa suave e tranquila.
As ruas estavam desertas e nem era tão tarde, os fatos assustadores juntamente com a cultura do medo em que vivemos faz com que as pessoas se recolham frente a algo desconhecido.
Mas não Joaquim, não ali, não agora.
A mistura de pedra, terra e mato que compunha a subida da rocha da praia da cruz se tornava um pouco mais ingrime a cada passo. Um grito vindo de longe chamou a atenção do rapaz que olhou e não viu ninguém. Talvez alguém dos prédios distantes estivesse vendo ele ali e por medo tenha se assustado.
O vento ali era mais forte, um pequeno arrepio passou pela coluna de Joaquim que não deixou-se intimidar, talvez, por ter a vã esperança de morrer e aguardar Lorena para viverem uma vida no futuro, talvez porque tenha fugido no passado desse trauma e percebeu que não adiantou ficar remoendo durante toda sua vida até aqui.
Conferiu se a faca estava bem presta nas suas costa, olhou para onde as ondas quebravam no mar agitado, viu a cruz vermelha fincada entre as pedras, lembrou-se do dia em ele a fincou ali, lembrou-se de seus amigos que morreram nas cavernas para que ele pudesse sobreviver e salvar Fernando, olhou para lua, sua divindade particular, fez uma prece a ela, e se jogou no mar.
***
As gotas de água fria em seu rosto o despertou, uma dor de cabeça insuportável o tomou de assaltou, então rolou no chão gelado com as mãos na cabeça se contorcendo de dor e sentiu algo úmido, será que era sangue? mas estava muito escuro ali para saber.
Quando teve forças para se apoiar e se sentar, ao se apoiar no chão o sentiu também úmido, será que seu sangue está por toda parte?
A dor na cabeça parecia diminuir um pouco, e um barulho distante chamou atenção.
Tateando o chão lamacento ele esticando a mão para frente tentando encontrar algo, sentiu uma barra fria de metal bem enferrujado e começou a tatear em volta descobrindo outras barras. Uma cela.
Um barulho de pedra arrastando veio da esquerda e um feixe de luz amarela e trêmula iluminou o que parecia ser um corredor entalhado nas pedras, além das barras da cela. Joaquim olhou para o fundo do local onde estava mas a fraca luz não chegava lá e um barulho vindo da escuridão o fez levar a mão às costas procurando a faca que milagrosamente estava lá.
Tudo estava se repetindo, exceto seu treinamento, sua vida de lutas a qual se dedicou afim de se tornar um guerreiro.
Passos de botas na lama se fizeram ouvir e da luz brotou uma silhueta gorda e esticada que a cada passo se concentrava na parede oposta irregular do precário corredor.
- He he he he - Uma voz grossa, gutural quase um coaxar, se confundia entre riso e soluço - Uno mas... dejame ver, dejame ver.
O barulho dos passos aumentaram até que uma figura imensamente gorda, morena, suja , careca e com uns 3 ou 4 queixos, trajando uma roupa que a muito fora branca, e bota pretas de borracha se aproximou da grade, Joaquim recuou para as sombras em silêncio, segurou o punho de sua faca de pesca sem tirar da bainha e ou parou de respirar ou respirou muito pouco.
- No veo nada en ese agujero de mierda! Vicente trae luz aquí abajo ahora!
Joaquim se encolheu mais ainda, o som que saia da garganta do homem mais parecia a voz de um ogro.
A luz ao fundo começou a fortalecer e Joaquim achou melhor retirar a mão da faca para não levantar suspeitas no momento e fingiu estar desacordado quando a luz da lamparina incidiu sobre sua pele.
Os dois homens conversaram alguma coisa em espanhol mas rápido demais para que Joaquim compreendesse. E foram embora.
As sombras se foram, o barulho de pedra arrastando se apresentou mais uma vez levando consigo a luz até culminar no silêncio, e o gotejar da água se tornar o som proeminente novamente.
Ali na escuridão, Joaquim não sabia exatamente como agir, tateou por toda a cela sentindo as pedras desiguais, encontrou um dos muito locais por onde a água entrava, e só ao provar água se lembrou de que estava em alguma caverna em baixo do mar.
Tateou pela grade até que encontrou uma grande tranca, pegou sua faca e tentou com um certo desespero abrir a tranca com ela, desistiu obviamente após poucas tentativas.
Então parou, pensou um pouco e ajustou a bainha da faca de maneira inclinada de maneira que ficasse mais fácil sacar, colocou-a no bolso da perna sem a bainha, e retirou rapidamente algumas vezes como que fazendo algum teste, cada vez conseguiu sacar mais rápido.
Não sabia ao certo quanto tempo havia passado, apesar de que a adrenalina tenha se mantido constante e o nível de estresse e de atenção estivesse ligados no máximo.
O barulho da pedra começou novamente, e uma pequena fresta da luz começou a crescer novamente.
Dessa vez a sombra era magra, e estava cambaleante, parecia se apoiar nas paredes com alguma dificuldade. Joaquim se levantou e pôs-se em posição de reação. A sombra pareceu reagir ao barulho que Joaquim fez enquanto se ajustava.
Lentamente com passos incertos, a sombra adentrou ao corredor sombrio, as mãos da pessoa que projetava a sombra agarrou a grade de uma vez, eram mãos pequenas magras e estavam repletas de sangue.
Joaquim se aproximou um pouco da grade, e pode ver melhor era uma garota, estava muito ferida com cortes por todo corpo, a outra mão faltava alguns dedos, mas ainda assim, por alguma força sobre-humana ela portava um molho de grandes chaves, com muito esforço ela tentou jogar as chaves para dentro da cela mas as chaves bateram na grade e caíram no chão lamacento.
Rapidamente Joaquim pegou as chaves e procurou desesperadamente a que abriria a cela dele, na quarta tentativa a chave encaixou e virou, o barulho do metal enferrujado foi estrondoso, e logo após conseguir sair ele ouviu vozes aos berros por trás do buraco iluminado entre as rochas no início do corredor.
Ao voltar os olhos para a garota, o rapaz a percebeu tremendo, estava entrando em choque, ele se agachou perto de sua libertadora, verificou que ela estava com marcas de incisões profundas, não havia nada que ele podia fazer para salva-la tinha perdido muito sangue, ele olhou nos olhos revirados dela, mau iluminados pela fraca luz, mas ainda assim fez questão de memorizar seu rosto e agradecê-la pelo resto da vida, mesmo ela não tendo mais consciência do que fez.
Apos o fim dos espasmos da mulher, ele a deitou, fechou seus olhos, verificou seus bolsos para ver se havia algum documento, mas não encontrou nada. A sua salvadora sem nome havia morrido. Provavelmente era a garota a qual Fernando se referia como a última a desaparecer, depois que esse pesadelo acabar, Joaquim se encarregou de voltar e lava-la até sua família.
Os gritos e barulhos lá atrás sessaram e projetaram sombras na polca luz da caverna, Joaquim se arrastou pra trás, para as sombras tentando fazer o mínimo de barulho possível, deixando apenas o corpo da mulher no campo de visão, calmante e se apoiando nas pedras nas suas costas ele seguiu para o início do corredor, as sombras pareciam estar com certo medo de entrar, falam coisas incompreensíveis devido ao limitado espanhol de Joaquim.
Chegando na parede de pedra que servia de porta para o corredor na caverna, esperou alguns segundos, a sombra pareceu se distrair brigando com alguém, enquanto falavam Joaquim aproveitou para sacar a faca e empunha-la quando a sombra tornou a olhar para dentro da caverna, Joaquim aguardou calmamente, controlando a respiração até que uma mão entrasse e se apoiasse na pedra, provavelmente para abri-la, o barulho de pedra rolando começou e quando percebeu que havia espaço para passar, Joaquim enfiou a faca na garganta do homem que não teve change de se defender.
Ao fundo dos grunhidos abafados do homem esfaqueado Joaquim ouviu um grito de susto e barulho de móveis se batendo como que caindo no chão. Então ele puxou a faca de dentro da garganta do homem que segurava a pedra, limpou a lâmina na própria camisa, e passou por cima do corpo ainda tremendo do espanhol, seus olhos demoraram a se acostumar com a luz, ele não havia pensado nisso, poderia facilmente ser atacado agora, mas aparentemente o outro indivíduo fugiu dali.
Quando seus olhos voltaram a enxergar, se viu em um guardo rústico, com coisas de madeira, e paredes ainda que de pedra um pouco mais trabalhadas. Havia uma grande bagunça ali, como que de alguma briga, e as manchas no chão deixaram claro onde a salvadora anônima do Joaquim havia conseguido as feridas de morte.
A porta de madeira pesava que levava a não se sabe onde, parecia perigosa, o que aguardava lá fora? Joaquim pegou a tocha na parece, acertou um chute no centro da grande porta de madeira que se abriu para fora e então jogou a tocha lá e viu que era um grande corredor de cimento, muito escuro também. Pegando fôlego como alguém que estaria preste a mergulhar, Joaquim atravessou rapidamente a porta e correu para de trás da porta de madeira onde a luz não batia.
Olhou com mais calma par ambos os lados do corredor, a sua direita havia uma grade, com alguma luz fraca ao fundo, ele se lembrou das chaves que sua salvadora lhe dera, deveria ter carregado consigo.
O outro caminho parecia levar a algum lugar mais limpo, lentamente Joaquim deu o primeiro passo, jogou a tocha de volta pra dentro do quarto de onde sairá e se envolveu nas sombras do corredor.
Caminhando para frente ele ouviu passos e vozes vindo de mais adiante, não se intimidou, já que estava ali era pra terminar o serviço, ou morrer tentando.
O corredor fazia uma curva reta, ele chegou até a curva e viu um sala mau iluminada a diante, a luz parecia vir do outro lado da parede em que ele estava encostado. Um dom longínquo de botas se fez ouvir, calmamente Joaquim deu alguns passos lentos, mas seguros a diante, e o barulho de passos de botas se fez mais forte até que parou.
Joaquim sabia que havia alguém ali a alguns centímetros dele do outro lado da parece, ele inverteu a maneira como segurava a faca, fazendo com que a lâmina ficasse para trás, deu um passou pra frente quase como um pulo e jogou a mão para trás do outro lado do muro às cegas, mas quando ouviu um grito e sentiu a faça acertando em algo macio soube que venceu, mas o grito foi seguido de um disparo e Joaquim sentiu como que alguma coisa tivesse pulado do chão e mordido sua coxa direita.
Então ele puxou a faca e enfiou um pouco mais a cima, não sabia a onde e quando olhou tinha enfiado a faca dentro da bota do homem com tanta força que agora ele tremia, sua arma havia caído no chão depois do disparo mas ele agora estava morto.
A dor na perda era muita, Joaquim pegou a arma do homem morto, era uma automática, e estava com pente cheio. Se arrastando até o canto mais escuro, ele tateou a perna e sentiu dois buracos, a bala atravessou a cocha.
A dor era muita, mas não o suficiente para apaga-lo, sua mente estava determinada. Ele rasgou sua camisa e enrolou a perna com a faixa de pano pondo-se de pé novamente e caminhando, agora com dificuldade mas ainda no escuro.
Cada tocha que encontrava ele apagava, cada curva de corredor ele observava minutos antes de atravessar de fato.
No próximo vão do corredor que ele entrou havia uma porta ele verificou novamente a arma e empurrou a porta, Ela não cedeu, então Joaquim pensou que todos a essa altura já sabiam que havia um jantar solto pelos corredores e atirou na fechadura da porta fazendo ela se abrir.
Quando a porta abriu o suficiente Joaquim foi recebido com um tiro que o acertou bem no abdômen. Sua arma caiu no chão, ele perdeu o senso de equilíbrio com a dor e caiu encostado na parede de trás de si e escorreu pro chão.
A dor era muita, com muito custo Joaquim conseguia manter um resto de consciência o suficiente para sentir sua vida escorrendo pelos dedos mesmo com o máximo de pressão que fazia em cima da ferida. Pelo som dos passos, o gordo se aproximava, a gargalhada gutural ecoava no corredor.
Estranhamente a dor começou a passar, o som das botas e das gargalhadas do homem gordo se distanciaram, e tudo que Joaquim sentia era com se estivesse sendo puxado pra baixo, sem dor, sem pressa, sem adrenalina... Apenas o sorriso de Lorena com seus cabelos prateados naquele dia maravilhoso, a brisa do mar levando as cortinas de seda para lá e para cá.
A saia rodada, o perfume, as lágrimas e o sorriso e então o beijo...
***
As luzes eram fortes demais, os olhos doíam muito, e com o passar dos segundos Joaquim percebeu que não só os olhos doíam mais sua barriga e sua perna parecia ter sido trituradas.
Ainda com visão embaçada ele olhou em volta, parecia uma mistura de cozinha com sala de cirurgia, com muita dificuldade e dor, Joaquim olhou para si e se viu nu com a ferida na barriga e na coxa explícitas, mas pelo menos ainda estava inteiro.
Um panico repentino tomou conta de si, era como se todo o medo suprimido até agora tivesse se transformando em um monstro e o tivesse engolido, seu corpo tremia em cima da mesa fria, sem muita força para se levantar, havia uma agulha espetada em sua veia trazendo remédio de uma bolsa de soro, porque eles o queriam vivo? Quem eram eles? que droga!
Joaquim puxou a agulha fincada em seu braço pra longe e rolou para cair no chão. Ele ficou espantado ao saber que era possível sentir mais dor do que estava sentido.
Virou-se de barriga pra cima e tentou se sentar, mas seu diafragma deve ter sigo rompido pois cara movimento parecia uma faca entrando novamente em sua barriga.
Quando conseguiu pôs-se sentado sentiu o sangue escorrendo novamente em sua barriga, menos, mas constante.
Virou-se para o lado tentando se levantar mais conseguiu no máximo ficar de quatro, respiração pesada, difícil, dolorosa, sofrida...
Um barulho no lado de fora injetou uma dose cavalar de adrenalina em suas veias, e a mistura de pânico e horror lhe deram forças para levantar não sem antes derrubar uma pequena estante de instrumentação cirúrgica no processo que caíram sobre seus pés provocando alguns cortes.
- AAAAAAAARRRGGGGGG! - Gritou finalmente exteriorizando todo seu sofrimento acumulado.
Joaquim agarrou um bisturi e com extrema dificuldade de manter-se de pé e se apoiando em tudo que poderia servir ele rumou para a porta.
Quando estava quase lá, um homem com roupas brancas abriu a porta e se espantou ao ver o Joaquim de pé. Não por reflexo ou treinamento, mas por fraqueza extrema, Joaquim caiu em cima do homem com o bisturi apontando para sua barriga, o peso de seu corpo empurrou o bisturi para dentro da barria do homem que gritou, e com esforço Joaquim, beirando a falta de consciência puxou o bisturi e fez vários outros furos até o homem parar de gritar.
O corredor parecia limpo, talvez estivesse realmente em um hospital e a ideia de ter matado um médico apavorou Joaquim.
Ele começou toda a luta para se por de pé novamente se apoiando primeiro no peito perfurado do homem morto, depois no vão da porta, então colocou desta vez o joelho no peito do defunto e com a outra perna consegui se por de pé.
A visão muito turva, o impedia de distinguir as coisas distantes, mas uma outra porta que estava ali perto ele conseguiu atravessar caindo mais uma vez. Parecia um vestiário pequeno, havia um amontoado de coisas em cima de um banco e ao se arrastar para proximo percebeu que eram suas roupas, tateou por sua faca de pesca e a encontrou.
A cada vez que caia devia lutar muito para se por de pé novamente, e agora não foi diferente, apoiou-se na cadeira cumprida e após alguns gritos e quase desmaios conseguiu se por de pé.
Um brilho prateado no canto da porta o despertou para a realidade que a dor profunda tentava retirá-lo. Uma arma, uma arma!
Passos tortos, e manchas de sangue em todos os lugares, mas a arma esta na sua mão.
Muitos passos dessa vez se ouviram, 3 homens, incluindo o muito gordo viraram o corredor ao fundo, eles pararam atônitos por alguns segundos ao ver a cena do outro homem morto na porta da sala de cirurgia, seus olhos olharam para o corpo e para a mancha de sangue que se arrastava no chão e nas paredes até a sala do vestiário, lá, viram um homem nú de pé, imundo de sangue e suor, apontando uma arma para eles.
Antes que pudesse reagir as balas atravessaram seus corpos aleatoriamente, a única coisa que Joaquim queria era que todos estivessem mortos, não importa a ordem.
Após esvaziar seu pente, Joaquim continuou a apertar o gatilho seguidas vezes ouvindo o barulho baixo de estalo sem balas da arma.
Quando percebeu que estavam todos mortos, que sua arma estava vazia ele a deixou cair.
Caminhou cambaleante pelo corredor, deixando sua vida, vermelha e líquida para trás tanto no chão quanto nas paredes, ele olhou para frente e viu Lorena, parada de pé com a mão estendida pra ele, atrás dela havia areia, muita areia, e um mar ao fundo, magnífico, o vento balançava sua saia e seus cabelos prateados, o seu perfume mesclado com a maresia.
Ao estender sua mão para segurar na mão dela, seu corpo caiu no chão, pesado e imóvel e sua consciência se desfez.

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