sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Sonhos ou Fragmentos de Memória
Imagine que você está numa floresta a noite
Você está vendo pequenas frestas da luz lunar penetrando na escuridão sólida e volumosa.
Você caminha, com medo, com sede, com dor e o desespero começa a consumir seu coração.
Tateando entre as matas, entre os galhos e imensas raízes que brotam do chão
Ouvindo barulhos e ruídos estranhos de coisas que certamente não te querem bem
Sente ser observado. Observado por coisas que querem se alimentar de você
Por criaturas que não diferem você de uma ratazana, é você quem é a caça, a presa.
É você que está no lugar errado.
Acoado você se esconde, tenta silenciar, mas sua respiração é tão alta, que ecoa pela mata
Seu coração bate tão forte que parece tambores convidando os monstros para uma linda refeição
Composta por sua carne e cujo a sede será saciada pelo seu sangue.
Você corre, pois o desespero é tanto que você sente a dor da mordida antes de ter sido mordido
O pânico te impedindo de pensar apenas correr.
Você vê uma luz a frente, uma chama de esperança, olha para trás sem ver nada, apenas sibilos e toda sorte de sons amedrontadores
Você chega numa clareira, sua pele é tingida de branco pela luz da lua.
Você respira.
À sua frente, uma lagoa calma, misteriosa, refletindo a lua em todo seu esplendor.
Bem no centro da lagoa, uma torre, antiga, feita de pedra com musgos e trepadeiras cobrindo-a quase que completamente.
Você retorna por um segundo do sonho e se lembra da floresta negra atrás de si, olha apavorado, vê um paredão formato pelas sobras das árvores ocultando tudo que não estava na clareira.
Recua com um passo pra trás, seus pés sentem o frio da água do lado.
Uma sede toma conta de seu corpo, você se vira, abaixa se apoiando sob um joelho, junta as mãos e mergulha na água gelada do lago.
Um gole.
Depois outro.
Você vê um pequeno brilho azul muito claro logo em baixo de onde você bebia água.
Estica o braço para tentar pegar, e sente algo com uma textura de pedra, mas ela esta presa, você pressiona ela um pouco e o brilho desaparece.
Curioso, você tateia e só sente a lama no chão por baixo da água.
Um barulho de rocha batendo, e um tremor vem da torre no centro da lagoa.
Pequenas ondulações agitam a superfície da água até chegarem aos seus pés.
A parte inferior da torre começa a emitir a mesma luz que você viu perto de si.
A luz cresce como um rastro, pelas paredes da torre, entre os encaixe das pedras, desprendendo as plantas grudadas que caiam nas águas.
Um barulho atrás de si o desperta novamente para a realidade da floresta escura. deparado novamente com a parede de sombras da clareira, você recua e decide nadar até a torre.
Mas quando você deu o primeiro passo dentro da água algo agarrou seu pé.
Assustado abaixou, parecia algo havia enrolado em seu tornozelo, com muito esforço retirou o seu pé e se afastou um pouco do lago.
É perigoso demais.
Da parece de sombras pareciam se estender tentáculos que buscavam te agarrar e te puxar novamente para a escuridão.
Algumas nuvens passavam em frente a lua o que ofuscou um pouco sua luz.
Na breu as garras feitas de sombras pareciam maiores, e poderia ser só sua imaginação, mas pareciam haver olhos na escuridão, malignos e famintos.
Você recuou novamente com o medo para a água. Sentiu novamente algo segurando sua perna.
Percebeu que esse algo não lhe puxava, não lhe apertava, apenas estava encostando em você.
Olhou novamente para a torre, estava limpa, iluminada pelas linhas suavemente azuladas.
Uma paz atingiu seu coração. O medo instantaneamente se foi, e todas as preocupações com vida e morte pareciam, de súbito, ser algo muito sem importância.
Voltou a olhar para as sombras e seus tentáculos já bem próximos a ponto de tocar em sua pele.
Fechou os olhos, abriu os braços e deixou-se cair na água.
Abriu novamente os olhos e viu a lua. Linda, enorme e radiante.
Aquilo que antes segurava seus pé o segurava completamente deitado na água, te mantinha virado para cima respirando enquanto te levava lentamente.
Depois de um tempo, seu corpo começou a se elevar, agora fora da água você via grandes raizes de árvores desdobrando e desenrolando para te segurar em cima da água.
Elas te puseram de pé em frente à torre.
Um sussurro veio de lugar nenhum em sua cabeça "toque-me".
Obediente você estendeu seu braço e tocou a torre com a palma da mão.
A luz da torre como que sendo canalizada começou a envolver sua mão, seu braço seu corpo.
A paz era indescritível, parecia que algo mágico estava acontecendo, algo realmente bom, longe de toda a imundice humana.
A luz seguiu caminhando das fendas da torre até tomarem conta de todo seu corpo.
A torre agora, sem a luz parecia velha como realmente era. Fraca e sem vida.
Fraca para não aguentar mais ficar de pé e primeiro um pedra, depois toda sua estrutura desmoronou.
Envolto na luz azulada, você olha para seus próprios braços, seu corpo parecia diferente, não só pela luz.
Era algo translúcido a ponto de ver os órgãos internos.
Pensando bem não eram os órgãos, era a energia azul, passando por dentro de seu corpo.
Você podia ver, pontos vermelhos, doloridos, com o estomago e o coração. Nesses lugares a luz se agrupava e como que algo quente que arrefecia rapidamente as tonalidades vermelhas no interior de seu corpo foram desaparecendo.
Você olhou para frente, não viu mais a parede de escuridão que via antes.
Via apenas os tentáculos pretos se movendo lentamente, se contorcendo um sobre o outro nos locais onde eram para estar uma energia verde e limpa.
Sem se dar conta, você começou a andar por cima da água. Seus passos eram suportados pelas raízes subaquáticas que o acompanhavam até a margem.
Quando seus pés tocaram a terra pela primeira vez. Você pode ver.
Olhando para baixo, você via além do chão onde pisava. Era uma grande bola vermelha e pulsante.
Você ficou triste e entendeu o que estava acontecendo.
Olhou novamente para a floresta e decidiu que ela será o reinicio de tudo.
Alguns pequenos tentáculos de escuridão que estavam por ali recuaram ao sentir o calor da energia azul que emanava de seu corpo.
Você esticou o braço como quem chama um filhote de cachorrinho.
Os tentáculos, com olhos de sombra raivosos e amedrontados em um último esforço vendo que a realidade havia sido alterada, abriu uma enorme boca de sombras e te engoliu.
A escuridão tomou conta de você.
A dor de um perder um filho, a dor de uma criança que não entende porque estão enterrando sua mãe.
O ódio por terem te estuprado, batido em você e te matado. A vergonha quando riram de você, quando zombaram de você. O medo de ter sido abandonado por todos que amava e a solidão profunda junto da certeza de que só restava a morte.
Você sentiu tudo isso, calmamente, como sendo expressões de uma criança que não compreendia a verdade. Que não podia ver com amplitude os mistérios do universo.
Esticou os braços, mesmo não podendo vê-los, A luz que residia dentro de si voltou a brilhar forte consumindo as sombras, quebrando a escuridão por onde tocava como se fosse um vidro quebrado cujos estilhaços caiam no chão e desapareciam.
A luz, começou a caminhar por toda a extensão dos tentáculos que consumiam toda a floresta.
Você sentiu a floresta dar o primeiro sinal de vida, como uma criança que chora quando acaba de nascer.
Os cacos de sobras seguiram se despedaçando e caindo até que não sobrou mais nada.
Sua energia azul estava por toda parte. Era como o leite materno para um recém nascido, você sentia as arvores e os pequenos animais que a muito tinham entregue seus pequenos corações às sombras sugarem essa energia de você.
E ao invés de se sentir fraco, se sentia mais forte.
Aos poucos, uma luz verde começou a emanar das árvores, os pontos vermelhos no interior dos animais começaram a ser curados, os tons de azul espalhados como uma névoa dentro da floresta começaram a se misturar com os tons verdes da própria floresta.
Até que tudo se tornou verde.
Não um verde ofuscante, mas suave e vivo.
Você soube naquele instante o que deveria fazer, agora só restava saber se os humanos iriam ser fortes o suficiente.
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